Texto I
Capítulo I
À primeira vista parecia um homem comum. Nada de particular que o diferençasse dos outros. Estatura mediana, pele azeitonada e curtida pelo sol, cabelos pretos e lisos, olhos negros e penetrantes. Um autêntico caboclo. Nem ao menos uma cicatriz na cara para chamar a atenção. Talvez (só que aí era preciso ser mais atento) seu rosto denunciasse um certo cansaço. Mas também só enquanto sério, pois quando sorria sua face se iluminava. Pena que sorrisse pouco. Rir ou gargalhar isso nunca se viu. Seu semblante era sempre circunspecto, pensativo. Aparentava uns quarenta anos. Podia até ter menos, mas era isso que aparentava. Os moradores da Vila das Marrecas tratavam-no com uma espécie de respeito quase místico, pois dele parecia brotar um singular magnetismo. Talvez pelo seu jeito de falar, de ouvir, de olhar. Expressava-se com moderação e sua voz jamais se alterava. Falava sempre baixo, mas suas palavras soavam audíveis. Através delas transmitia uma espécie de sabedoria dolorida, como se tivesse aprendido as lições da vida pela força das dificuldades e sofrimentos.
Enquanto viveu no vilarejo, afora a maneira respeitosa com que era tratado, nenhum outro tributo lhe rendiam. Era um igual. Não incomodava ninguém e ninguém o incomodava. Levava sua vida como um eremita. Mas isso não era novidade na Vila das Marrecas, pois todos viviam fechados dentro de si mesmos. Era o modo de viver daquele pequeno povoado. Parece que cada um estava mais preocupado em sobreviver no meio da pobreza dividida por todos. Carregavam seus fardos, conformados, sem revoltas, nem contra os semelhantes, nem contra as forças do alto. Era assim mesmo, diziam.
FARO, Roberto Carvalho de. Arrastado pela correnteza. Belém: Paka-Tatu, 2012, p. 9-10. Adaptado.
Com base na leitura do Texto I, a frase final “Era assim mesmo, diziam.” permite apenas a seguinte interpretação: