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Como evolui nosso poder de imaginar
Natália Spinacé
A imaginação tem funções práticas e mudou ao longo da história da humanidade. Como
ela será no futuro?
Tente lembrar a primeira vez na vida em que você imaginou algo. Talvez sua recordação mais remota seja de um universo fantástico, com príncipes e princesas, monstros, espaçonaves e aventuras. Agora, tente lembrar sua sessão imaginativa mais recente. Após a infância, muitos deixam de fantasiar com realidades fantásticas. A maioria ainda continua a usar febrilmente a imaginação. No dia a dia, você provavelmente se engaja em diálogos sem interlocutor e sente as emoções de amores, triunfos e ameaças que não ocorrem no mundo real. Passamos boa parte da vida num universo particular. Esse mundo desperta crescente interesse de cientistas. Por que passamos tanto tempo em pequenos delírios? Como essa capacidade evolui, ao longo da história? Eis algumas das questões a que a ciência começa a responder.
As primeiras conclusões sugerem que a imaginação ajudou nossos antepassados, como nos ajuda hoje, a tomar decisões, a manter a mente saudável e a conviver em sociedades complexas. Sem a imaginação, provavelmente viveríamos em cavernas, em pequenas tribos, sem ter inventado a escrita. Avançar nessas descobertas exigirá que os cientistas definam melhor a imaginação. O mapeamento da atividade cerebral não é conclusivo. Para alguns, imaginar é transcender a vida real, de qualquer forma. Pode ser enxergar alienígenas descendo do céu, simular como será o primeiro encontro com alguém ou evocar a imagem de um prato que comemos dias antes. Para outros, como o pesquisador de medicina comportamental Ricardo Monezi, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), evocar o prato já saboreado não é imaginar. "Quando projetamos uma imagem do passado no cérebro, não usamos a imaginação, e sim resgatamos uma memória", diz.
A psicóloga e filósofa Alison Gopnik, da Universidade da Califórnia, segue a primeira definição. Ela constatou que, quando nos saímos mal numa situação, como uma entrevista de emprego ou uma briga, repassamos o ocorrido mentalmente muitas vezes. Fazemos isso com dois recursos diferentes e complementares.
Acionamos a memória, mas também criamos alternativas imaginárias. Queremos saber como a situação teria evoluído se tivéssemos agido de forma diferente. Esse mecanismo, supõe Alisom, aumenta a eficiência do aprendizado com os erros. A imaginação ajusta nosso comportamento para elevar as chances de sucesso na próxima vez.
A imaginação tem um papel fundamental em decisões enfrentadas pela primeira vez. Mesmo sem ajuda da memória, tentamos antever as consequências de cada ação. Visualizamos a roupa que pensamos usar, o término de um relacionamento, o pedido de demissão. Isso nos permite explorar futuras emoções e reações. As abstrações servem também para que a mente faça uma pausa na exaustiva função de analisar os problemas reais. Ao imaginar, damos descanso ao cérebro e preservamos a saúde.
A maneira como usamos nossa imaginação hoje não é a mesma de nossos antepassados. Por isso e por outros indícios, podemos supor que as gerações futuras terão capacidade imaginativa melhor que a nossa. "A tecnologia e a internet nos permitem criar pensamentos que jamais seriam possíveis sem elas", diz Steven Mithen, especialista em evolução da mente. "Por meio da tecnologia, ampliamos nossa imaginação”.
Época, No. 855, 20 de outubro de 2014, p. 58-60.
Assinale a alternativa em que o termo em negrito estabelece relação de conformidade.