A biblioteca silenciosa
Depois da capela gelada, a biblioteca era o segundo lugar mais sagrado da escola. Não que fôssemos proibidos de entrar; éramos estimulados a frequentá-la, contanto que tivéssemos boas intenções.
Dona Jandira, a bibliotecária, foi explícita durante nossa primeira visita como pessoas alfabetizadas. Disse que ali estava reunido o conhecimento da humanidade. Podia ser usado para o bem ou para o mal. Isso dependia de nós, e cabia a ela nos orientar nesse aspecto. Livros, ela nos alertou, são munição para o pensamento.
“Escolha-os bem.”
Nessa época meu pensamento estava voltado para coisas do outro mundo. E por se tratar de uma escola de freiras, o livro que eu procurava não teria passado por aqueles portões, quanto menos encontrado lugar naquelas estantes. E, caso tivesse, dificilmente eu teria permissão para lê-lo. Segui a bibliotecária e meus quatro colegas.
As expedições pela biblioteca não podiam ultrapassar cinco alunos por vez: essa era a primeira regra. A outra era que não podíamos fazer barulho. A exceção a isso se dava somente quando estivéssemos ao balcão de empréstimo e devolução. Ali deveríamos nos dirigir à bibliotecária a fim de informar o título e autor do livro que buscávamos.
Caso não soubéssemos, poderíamos explicar, em voz baixa, o assunto. Como meu assunto era indizível, teria que me contentar com mais um Monteiro Lobato. Nada contra a turma do Sítio. Eu simpatizava com eles, e vinha acompanhando suas peripécias há um bom tempo. Mas eu sabia que criatura alguma daquele universo chegaria aos pés do Minotauro, e esse eu já tinha decifrado.
Vagava por um corredor da seção policial, quando um título atraiu meus olhos. Reli três vezes as palavras: O Escaravelho do Diabo. Encolhida, folheei aquilo. Assassinato, morto, inexplicável, pânico. Apertei o livro contra o peito, sem saber o que fazer. Minha única saída era devolvê-lo e fingir que não o tinha visto. Seria melhor para mim. Jamais permitiriam que eu saísse dali com O Escaravelho do Diabo. A existência daquele livro confirmava minhas suspeitas. Abri-o novamente. O cartão colado na contracapa mostrava uma lista iniciada em abril de 1986. Desde então alunos vinham retirando aquele livro, ano após ano. Alunos que não estavam mais conosco, que já haviam deixado a escola e cujos destinos eu só podia especular. Alunos que se foram, para lugares indeterminados.
Seria muita ingenuidade acreditar no valor literário da obra. O nome da autora não me dizia coisa alguma. A professora de literatura era exigente quanto a isso, e se aquela autora tivesse alguma importância, ela já teria caído numa prova. Lúcia Machado de Almeida; uma incógnita, um pseudônimo – talvez. Um romance policial ambientado na cidade de Vista Alegre. Uma pacata cidade se encontra sob ataque de um inseto – era o que a tal Lúcia tinha a dizer sobre o livro. Pois ela que me desculpasse, mas a questão era muito maior. Dentre as centenas de livros da biblioteca, O Escaravelho do Diabo foi despretensiosamente inserido para quem quisesse ler. Irmã Lurdes estava a par daquilo e por algum motivo queria que aquele livro chegasse às minhas mãos.
Fui até o balcão de empréstimo e devolução e, sem dizer palavra, entreguei o livro à Dona Jandira. Ela transpôs dados da minha ficha para o livro e vice-versa. Bateu o dedo indicador duas vezes na capa, precisamente sobre a palavra que ambas tínhamos em mente. Percebi, pelo som seco da batida, que sua unha era bem dura.
“Boa escolha”, disse, e piscou.
Aquela era a última aula. O sinal das cinco da tarde tocou, mas Dona Jandira não se mexeu. A biblioteca estava vazia e a porta de saída longe. Enfiei o livro debaixo da camiseta e corri dali.
(In ÍNDIGO. Cobras em compota. Brasília: MEC, 2006. p. 59-62.
Disponível em http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/me003420.pdf. Acesso em 29 set. 2019)
A narradora do texto compara a biblioteca de sua escola a um lugar: