O diploma
- Olha O diploma da mamãe! Quem tem sua mamãe, ofereça este diploma a ela! Ofereça um diploma à sua mamãe!
O rapaz aproximou-se da banca onde se exibiam os diplomas. Pediu licença para pegar um deles, enquanto o vendedor continuava gritando a mercadoria sentimental.
Mirou e remirou o papel com atenção.
- Onde é que bota o retrato?
- Que retrato? - perguntou o camelô.
- O meu, para oferecer à minha mãe.
- Ah, compreendo, o cavalheiro quer dar um retratlnho a ela. Multo bem, coloque sua bonita estampa nas costas do diploma, está vendo?
Timidamente, o rapaz formulou a objeção:
- Mas, se ela enquadrar o diploma e pendurar na parede, o retrato fica escondido nas costas.
- Perfeitamente, nesse caso, ela pode pendurar o quadro de costas e o amigo fica aparecendo.
- Isso não. Eu queria botar meu retrato na frente do diploma, junto disso tudo que está aí escrito.
- Não tem problema, cola aqui neste cantoa, fica mais interessanteb.
O rapaz tirou um embrulhinho do bolso, tirou do embrulhinho sua fotografia em tamanho postal, aplicou-a sobre o diploma, no lugar indicado pelo vendedor. Reconheceu aborrecido:
- Cabe não.
- Cabe sim. Com licença, cavalheiro. Olhe como ficou bonitod. O senhor não gosta do retrato aqui neste canto?
- Ele precisa de mais espaço ... Se não, vai cobrir as letras da escrita ...
- Ora, só umas letrinhas. Vai levar?
- Bem ... eu levo. Corto o peito do meu retrato, assim ele cabe sem ofender as palavras. E como eu faço para mandar para lnajaroba?
- Onde fica isso, meu chapa?
- Sergipe, então não sabe?
- Até este momento não sabia, mas não tem problema. Enrola, bota no Correio, vai de avião.
- Chega todo esbandalhado.
- Então, passa ali na papelaria e pede para botar enchimento, fazer um embrulho bem legal.
- Mais um favorzinho, moço - e o rapaz baixou a voz e a cabeça.
- Vai dizendo, vai dizendoc.
- Pode ler para mim o que está escrito aí? Eu não gostaria que minha mãe recebesse o diploma sem eu saber o que estou mandando dizer nele ...
- Com todo prazer - e leu com ênfase, para o rapaz e para o grupo em redor, a declaração de amor de um filho à sua mamãe, em forma de diploma.
(Carlos Drummond de Andrade, Caminhos de João Brandão. Rio de Janeiro, Livraría José Olympio Editora, 1970)
Assinale a alternativa em que não há o emprego do verbo no imperativo.