Leia o trecho da crônica de Kalaf Epalanga para responder
a questão.
Banho de caneca
Não me canso, o angolano é o meu assunto favorito.
Reparem bem, o lúcido afeto que lhe dedico é umbilical.
E como o amor, ainda que cego, é exigente, não me furto a
reconhecer que somos um povo subdesenvolvido com uma
coragem arrebatadora, engenhoso no alto da sua miséria
semi-institucionalizada, de sorriso aberto, mestre de esquemas e especialista na arte do banho de caneca. Desde muito
cedo, desde o meu tempo da bola de gude e do bica bidon1
,
que soube que o mundo cabe dentro de um alguidar com
água, o mesmo no qual ainda hoje muitos chacoalham o seu
amanhecer madrugador
Ah, se essas bacias falassem! Realmente certas coisas
são como andar de bicicleta, nunca se esquecem. Amanheci
na minha Benguela2
materna e me bastou ver aquela bacia
repousando ao lado da sua eterna companheira, a caneca,
para que as memórias se tornassem palpáveis. Não há lar,
seja ele um palácio ou um barraco de adobe3
e pau a pique,
que não exiba esse indispensável utensílio. Tão democrático
e unificador que até hoje me espanto porque é que ainda não
foi consagrado a monumento, talvez monumento seja exagero, mas o alguidar e a caneca já mereciam um semba4
que lhes servisse de ode. Sim, porque não são só as classes
menos favorecidas que se dedicam a esse ritual. Todo o lar,
seja ele de um ministro, de uma zungueira5
e até, por ironia,
de um funcionário das Águas de Angola, desde que tenham
torneiras no silêncio, conhecem a arte do banho de caneca.
(Kalaf Epalanga, Minha pátria é a língua pretuguesa: crônicas, 2023)
1 Bidon: brincadeira angolana em que um jogador, o “segurança”, precisa
defender uma garrafa ou “bidon” (bidão) no chão, enquanto os outros jogadores tentam chutá-la.
2Benguela: cidade angolana.
3Adobe: tijolo de argila.
4Semba: movimento de dança que consiste no embate, de frente, entre dois
dançarinos; umbigada.
5Zungueira: vendedora ambulante.
• Reparem bem, o lúcido afeto que lhe dedico é umbilical. (1º parágrafo) • Ah, se essas bacias falassem! (2º parágrafo) • Sim, porque não são só as classes menos favorecidas que se dedicam a esse ritual. (2º parágrafo)
No contexto da crônica, as expressões destacadas têm como referências, correta e respectivamente: