Fragmento 3
Os tipos de intervenção que os profissionais de revisão fazem nos textos também são objeto de discussão e pesquisa. Normalização, correção ortográfica, sintática e estrutural são aspectos formais comumente tocados pelo revisor. E o conteúdo, a quem cabe? Problemas de layout dizem respeito ao revisor? Até que ponto se pode “mexer em um texto”? Quais são os limites entre retextualização, reescrita, edição e revisão? Com que intensidade pode ocorrer o diálogo entre revisor e autor? Algumas editoras mantêm certa distância entre ambos, optando pela mediação do editor. Outras instituições preferem uma negociação direta entre autor e revisor, estabelecendo entre eles uma relação de confiança.
[...] Assis (2006) cita Serafini e Ruiz ao relembrar os tipos de correção propostos pelas duas autoras. Para Serafini (1989), as correções seriam de tipo resolutivo (quando o revisor resolve os problemas encontrados no texto), indicativo (o revisor apenas marca os problemas) e classificatório (o revisor utiliza metalinguagem para indicar os problemas). Ruiz (2001) amplia essas categorias, propondo a revisão interativa, quando o revisor dialoga com o autor, dando sugestões e discutindo aspectos do texto. Segundo as autoras, o último tipo de correção subsidia muito mais a construção da autoria e a aprendizagem da escrita.
RIBEIRO, Ana Elisa. Revisão de textos e “diálogo” com o autor: abordagens profissionais do processo de produção e edição textual. In: Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 32. Curitiba, 2009. [Anais eletrônicos...]. Curitiba: Intercom, 2009. Disponível em: <http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2009/resumos/R4-2050-1.pdf>. Acesso em: 12 out. 2016.
Fragmento 5
Sobre gramáticos e revisores
Os gramáticos são entidades dotadas de um grande poder.
Eles têm o poder para baixar leis sobre como as palavras devem ser escritas e sobre como elas devem ser ajuntadas. Seu poder vai ao ponto de poderem estabelecer que uma certa palavra existe ou que tal palavra não existe. Quando a dita palavra aparece num texto, eles a desrealizam por meio de uma palavra latina, "deleatur", afirmando que se trata de um simples fantasma.
Foi o que aconteceu com a palavra "estória". Atreva-se a escrevê-la! Os "revisores", policiais da língua que cumprem as ordens dos gramáticos, logo a transformam em "história", assumindo que o escritor a escreveu por ignorar que ela foi a óbito.
Os revisores são seres obedientes: cumprem e fazem cumprir as leis ditadas pelos gramáticos. Saramago descreve a sua condição como seres "atados de pés e mãos por um conjunto de proibições mais severas que um código penal". Olhos de falcão, têm de estar atentos aos mínimos detalhes. Sua concentração nos detalhes é de tal ordem que, por vezes, o sentido do texto, aquilo que o escritor está dizendo, lhes escapa.
Aconteceu comigo. Escrevi um livro -"O poeta, o Guerreiro, o Profeta". O argumento se construía precisamente sobre a diferença entre "estória" e "história". Num capítulo era "estória". No outro, era "história". Se ele, o revisor, tivesse prestado atenção naquilo que eu estava dizendo, ele teria notado que o aparecimento alternativo de "estória" e "história" não podia ser acidental. Mas ele, obediente às leis dos gramáticos, transformou todos os "estórias" em "história", tornando o meu livro gramaticalmente correto e literariamente "nonsense". Noutra ocasião, o revisor enquadrou na reforma ortográfica uma fala do Riobaldo, que eu citava. Ficou divertido ler Riobaldo, jagunço de muitas mortes, contando seus casos com fala de professora primária.
ALVES, Rubem. Sobre gramáticos e revisores. Folha de S. Paulo, São Paulo, 20 jan. 2009. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2001200913.htm> Acesso em: 12 out. 2016.
Considerando o papel do revisor de textos no processo editorial e os tipos de revisão apontados por Ana Elisa Ribeiro no Fragmento 3, sobre as condutas dos revisores relatadas pelo autor, é INCORRETO afirmar que: