Leia o texto a seguir para responder à questão:
Dr. Aranha era para mim o ser mais poderoso e misterioso do mundo. Depois de atender minha avó, ele sempre ficava um pouco mais. Entre cafés, biscoitos de polvilho e bolo
de laranja, seguia com algumas conversas mais amenas,
gesticulando suas mãos imensas diante de meus pequenos
olhos atentos. Na hora de sair, me beijava a testa e fazia
crescer em mim a vontade de beijar testas também. Quando
ia embora, deixava um rastro de paz. Era impressionante
como minha avó melhorava só de vê-lo. Minha mãe voltava
a sorrir, cheia de esperança na nova receita.
A vida seguia, mas, entre altos e baixos, o curso natural
da doença levou à amputação das pernas. A esperança de
a dor passar com a amputação também acabou rapidamente: ela persistia. Diagnóstico aterrorizante para uma criança:
minha avó tinha uma dor fantasma. Dor fantasma… Teria
sido possível exorcizá-la? Mandar a dor fantasma seguir seu
caminho evolutivo? Tirá-la do purgatório e libertá-la rumo ao
céu das dores? Ou poderíamos condená-la ao inferno, onde
ficaria por toda a eternidade e nunca mais amedrontaria ninguém por aqui? O que faço eu, ainda viva, para combater
uma dor fantasma? Rezar não adiantou.
Amputei as pernas finas ou gordas de todas as minhas
bonecas. Nenhuma escapou ao destino cruel da semelhança. Só a Rosinha, que viera de fábrica com as pernas cruzadas, como um Buda, ficou inteira. Hoje ainda me pergunto:
a escolha de se manter sentada nos protege de andar e
de perder as pernas no caminho? Mas a Rosinha ganhou
marcas “cirúrgicas” de canetinha, só para me lembrar de
que, mesmo se eu quiser me manter sentada, a vida deixará
suas marcas.
Então, aos 7 anos, eu já tinha uma enfermaria que cuidava da dor das bonecas. No meu hospital ninguém tinha
dor. Minha avó ria e dizia que queria ser cuidada no meu
hospital. E eu prometia que cuidaria dela e que nunca mais
teria nenhuma dor.
(Ana Claudia Quintana Arantes. A morte é um dia que vale a pena viver.
Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2016.)