Cocaína em tubarões é só a ponta do iceberg
Por Bernardo Esteves e Allan de Abreu
A cocaína presente em treze tubarões coletados no Rio de Janeiro por pesquisadores da
Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) pode ser apenas a ponta de um iceberg. A droga ilícita que
chamou a atenção da opinião pública é mais um sinal de que esses e outros peixes possivelmente
estão contaminados por poluentes despejados diariamente nos mares. “Nesse estudo, olhamos
para a cocaína, mas deve ter uma série de outros contaminantes nos animais”, disse o
farmacêutico Enrico Mendes Saggioro, líder do grupo que encontrou a cocaína nos tubarões.
Outras drogas ilícitas, medicamentos, hormônios, microplásticos, metais pesados e
diferentes compostos já foram identificados em organismos marinhos. “Estamos adoecendo os
oceanos”, afirmou o pesquisador. A cocaína já havia sido identificada em peixes e mexilhões,
mas esta é a primeira vez em que foi encontrada em tubarões. Esses animais são considerados
bons indicadores da qualidade do ambiente e frequentemente são usados em estudos que
avaliam a presença de poluentes no oceano. “Por se tratar de predadores que estão no topo da
cadeia alimentar, a chance de encontrar contaminantes em seu organismo é maior”, disse
Saggioro, que salientou que esses animais acumulam os poluentes absorvidos pelos organismos
ao longo da cadeia.
Os animais testados pertencem ___ espécie Rhizoprionodon lalandii, conhecida
popularmente como tubarão-bico-fino-brasileiro ou cação-rola-rola. Trata-se de um peixe de
pequeno porte – os espécimes analisados tinham entre 46 e 73 centímetros de comprimento. Os
animais foram capturados por pescadores na praia do Recreio dos Bandeirantes, na Zona Oeste
do Rio de Janeiro, entre setembro de 2021 e agosto de 2023. Eles haviam sido coletados para
testes de outros contaminantes em estudos conduzidos no laboratório de Saggioro, especializado
na análise de indicadores da saúde ambiental. Os pesquisadores resolveram analisá-los para
verificar se também havia cocaína em seus músculos e fígado, e se surpreenderam com os
resultados. “Esperávamos encontrar ___ droga em alguns dos animais analisados, mas não em
todos”, disse Saggioro.
A amostragem é pequena e não permite extrapolar as conclusões para outros animais. O
farmacêutico contou que seu grupo decidiu publicar prontamente os resultados inéditos, mas já
está conduzindo novos estudos para entender melhor os achados. Os cientistas pretendem testar
outras espécies marinhas e analisar amostras de água para traçar um panorama mais abrangente
da contaminação por cocaína no oceano. Querem também investigar, no futuro, ___ presença
de outros contaminantes nesses organismos
(Disponível em: piaui.folha.uol.com.br/cocaina-em-tubaroes-e-so-a-ponta-do-iceberg/ – texto adaptado
especialmente para esta prova).