Instrução: As questões de números 01 a 15 referem-se ao texto abaixo. Os destaques ao longo do texto estão citados nas questões.
A vida em um dia
Um inusitado projeto pediu para que pessoas do mundo todo enviassem vídeos em que contassem sua vida em um dia. O retorno a esse apelo veio na forma de nada menos que 4500 horas de imagens registradas por pessoas de mais de 190 nacionalidades. Trata-se de A vida em um dia, documentário produzido a partir da parceria entre a plataforma de compartilhamento de vídeos YouTube, o diretor Kevin Macdonald e os produtores Ridley e Tony Scott. Pensado a partir de uma ideia simples (conte-nos um dia de sua vida e faça parte de nosso filme), A vida em um dia é também um filme simples, porém capaz de levantar algumas reflexões. Editado em ordem cronológica, o documentário mostra pessoas acordando, escovando os dentes, tomando café da manhã, saindo de casa para o trabalho, fazendo o almoço etc., conseguindo captar o que de mais forte há na vida das pessoas: o cotidiano. Por ser tão simplório, à primeira vista o filme pode parecer apenas um compilado de vídeos do YouTube, intercalados com trailers de bons dramas que jamais chegaremos a ver. São cenas simples do cotidiano intercaladas com passagens que se sobressaem (como a do jovem que anuncia sua homosexualidade pelo telefone para a sua avó, ou a cena que se passa em um lar desorganizado e mostra o hábito de um pai viúvo e seu filho pequeno saudarem a imagem da falecida esposa/mãe às manhãs), e personagens que são retomados em mais de um momento, como Okhwan Yoon, coreano que já passou por mais de 190 países em sua grande viagem pelo mundo a bordo de sua bicicleta. Essa aparência à primeira vista vai caindo por terra à medida que montagem, edição e trilha sonora se juntam para transmitir o ritmo da evolução natural do dia, mais lento durante ___ primeiras horas do dia ou após o almoço, por exemplo. Além disso, durante o desenvolvimento do filme, algumas curtas e interessantes antologias, como os trechos dedicados ___ nascimentos ou ___ respostas para as perguntas propostas pelos produtores (o que você ama? Do que tem medo? O que tem nos bolsos?), são mostradas e impedem que o expectador encare o filme como um mero compilado aleatório de vídeos. A montagem bem feita de Joe Walker merece aplausos em determinados instantes, como a parte em que brincadeiras de soldados norte americanos em atividade são seguidas por registros de um homem afegão empenhado em desmistificar a fama negativa de seu país; imagens essas que, por sua vez, são alternadas com a preparação de uma mulher para uma video-conferência com o marido, um soldado em atividade e distante devido à guerra. Essa bem-sucedida montagem passa uma das mensagens do filme: mesmo em diferentes culturas e costumes, somos humanos e podemos partilhar de um mesmo contexto, somos todos pessoas diferentes, mas unidos pela humanidade. Em sua primeira aparição, o ciclista coreano contribui também para a transmissão dessa mensagem ao se apresentar dizendo que nasceu na Coreia, não importa se na do Sul ou na do Norte, e que está viajando o mundo descobrindo novas culturas e engrandecendo a si mesmo enquanto pessoa. O filme recebeu diversas críticas, entre elas a construção que pouco explora a heterogeneidade de um material tão vasto, assim como a falta de uma diversidade de enfoques que poderiam mostrar o efeito das grandes questões da vida na visão de diferentes culturas. Para muitos, essas críticas se somam ao acabamento impecável e polido, que descaracteriza um pouco o amadorismo da proposta, resultando em um filme profissional com estética amadorística forjada, que mais se assemelha a um grande comercial da raça humana. A partir dessas críticas e retomando as reflexões iniciais levantadas, fica claro que o diretor, em vez de tentar apresentar e questionar as diferenças que dividem a humanidade, escolheu o caminho mais palatável: fazer uma obra que exalta os sentimentos mais belos, harmonizando pessoas, raças, etnias e credos distintos, para mostrar que, antes de qualquer coisa, somos humanos em busca de uma vida digna e nada mais forte que o nosso dia a dia para tentar reproduzir o que somos.Texto adaptado especialmente para esta prova. Disponível em:
http://www.comciencia.br/comciencia/?section=8&tipo=resenha&edicao=129
O termo “apelo” (l. 02) é decorrente do processo de formação de palavras denominado derivação: