No romance Vidas Secas, é crucial o enfezamento do narrador com palavras que não remetem a coisas e atos verazes. A palavra escrita, por exemplo, sob cujo limiar se exprimem Fabiano e os seus, é, para o sertanejo, causa de angústia e de opressão. É a cifra misteriosa rabiscada na caderneta do patrão, são aquelas letras taxativas que se impõem na hora do acerto de contas com o cabra.
Lembro o que diz Paulo Honório, em São Bernardo, e Luís da Silva, em Angústia, sobre o caráter safado das palavras pedantes e das estreias literárias que se exibem nas vitrinas como as prostitutas de rua. A palavra escrita sofre um processo que lhe movem a economia e a moral da pobreza.
Volto ao narrador. Este olha de cima, da História brasileira já conhecida, o destino do seu vaqueiro: sair de um ciclo, que ao retirante parece apenas natural, e rumar para alguma cidade grande do Sul, onde, faça chuva ou faça sol, precisa-se de mão de obra barata.
O historiador, que está, de algum modo, à frente dos acontecimentos, vê as etapas do processo. O sonho do vaqueiro e as fantasias que ele projeta no seu Eldorado do Sul se dizem, primeiro, no discurso mental de Fabiano e, depois, na interpretação que lhes dá o narrador.
O sonho, decifrado como ilusão, acorda na história meridiana do novo proletariado e revela a sua essência de cativeiro: chegariam a uma terra civilizada, mas ficariam presos nela.
Alfredo Bosi. Céu, inferno: ensaios de crítica literária e ideologia. São Paulo: Ática, 1988, p. 12-13 (com adaptações).
Em relação ao texto acima, assinale a opção correta.