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Apareceu o mapa genético do ser humano, o genoma, ou o livro da vida. Os cientistas conseguiram um esboço que chega a 97% de seu conteúdo. Enorme passo para a humanidade. O homem brinca de Deus e abre perspectivas praticamente infinitas para a existência. Trata-se do início. Ainda remanescem pesquisas para mais de um século.
Mas é possível, hoje, imaginar que, dentro de 20 ou 30 anos, haverá oportunidade de uma pessoa ser submetida a exames e receber uma carta de predisposição para doenças. Assim, ela poderá se prevenir adequadamente. Os cientistas concordam numa afirmação: o genoma terá o mesmo impacto do descobrimento da energia nuclear ou do surgimento das vacinas.
O livro da vida marca – de maneira histórica, política e comportamental – o verdadeiro início da nova era, do terceiro milênio. Para além do calendário, a vida do homem na Terra ingressa em nova fase, sem que tenha havido necessidade de conflito bélico para modificar os procedimentos. A penicilina foi descoberta no esforço da Segunda Guerra Mundial. No início, sua aplicação era restrita a quem estava no palco dos combates. Hoje é corriqueira.
O projeto genoma humano, ao contrário, resulta do trabalho de consórcio internacional composto pelos Estados Unidos, Europa e Japão, que pretende mapear os genes da espécie humana até 2005. Em 1990, o projeto genoma tinha o envolvimento de mais de cinco mil cientistas, de 250 laboratórios diferentes, que contavam com orçamento de vários bilhões de dólares. Na área da saúde, os objetivos são a melhoria e a simplificação do diagnóstico e do tratamento de doenças genéticas.
Os limites da ciência são os limites da imaginação e da criatividade do homem. Há uma avenida na direção do futuro que, lentamente, vai moldando a nova sociedade, extraordinariamente bem equipada para enfrentar os rigores do clima e os desafios da competição na vida moderna. No entanto, ainda não foi traçada a linha de comportamento ético que deverá impedir eventuais delírios de grandeza e poder. Esse é o problema que remanesce. As múltiplas possibilidades permitem o surgimento de algum líder entusiasmado, por exemplo, por ideias de eugenia.
O conhecimento não é bom nem mau. Ele assusta porque é novo, mas não carrega em si os elementos necessários para a mudança. Sua utilização, sim, pode modificar sociedades e comportamentos. A questão subsidiária à grande descoberta dos cientistas é sua correta aplicação. A possibilidade aumenta de maneira substancial a perspectiva de vida do ser humano, muda a pirâmide social, refaz as relações de trabalho e até os relacionamentos de família.
Quando a bomba atômica iluminou o céu de Hiroshima, com uma luz mais forte do que o Sol, a humanidade imaginou que o fim estava próximo. Esteve, mas o perigo foi contornado. O próprio homem tratou de desarmar os arsenais e caminhar no sentido da paz setorial, provisória, temporária – enfim, algum tipo de paz. O genoma, que pode mudar o sentido da vida, deve merecer as mesmas preocupações – servir ao homem.
(Diário de Pernambuco, Editorial. 27 de junho de 2000)
“... sem que tenha havido necessidade de conflito bélico para modificar os procedimentos”.
Essa observação feita pelo articulista