Imagina só que eu hoje me senti tão feliz que me pus a andar pelo quarto até sentir as pernas cansadas [C] e a cabeça tonta. Imagina só que estava chovendo e eu me lembrei de ti. Não, não é assim que eu devo contar.
Começarei de outra forma. Como sabes, eu não posso me queixar de infelicidade, porque, graças ao bom Deus, não me falta o pão nas horas certas e afinal tenho uma cama onde me estirar depois de um dia em que cumpro meu dever. Pois bem, querido, amado, eu sou tão mal-agradecida que às vezes me parece pouco ter o pão e a cama Às vezes me parece pouco até o fato de eu ter uma saúde regular e as duas pernas que a providência não me quis tirar. Bem sei que é uma vergonha [D] e é como tal que eu o confesso.
Como eu ia lhe dizendo, às vezes tudo fica com um gosto de borracha e nesse momento nem mesmo tomar café na cama me distrai Tudo fica velho de repente e eu peço a cada instante. Imagina, queridíssimo [A], que eu chego a me perguntar: para que o trabalho? para que tomar café na cama? para que sentir algum prazer? Imagina, meu bem, eu, que deveria agradecer continuamente por ter nascido com os dois olhos sãos, ou mesmo, por ter nascido, imagina que essa miserável criatura que eu sou se revolta contra a Criação! Tu bem podes crer quanto eu me maldigo depois desses momentos [E]. O pior é quando eles se instalam [B] podem durar pouco mas podem durar muito também. E, às vezes, depois de vários dias de pecado, eu me acordo como se tivesse perdido a memória. Ora é o sol que eu enxergo pela primeira vez, ora é o ar que eu descubro como é bom respirar. Naturalmente eu não conto isso a ninguém porque as outras criaturas são melhores que eu e não duvidam da alegria de Deus. Vês, queridíssimo, eu tenho até medo de mim, em alguns momentos Que ousadia a minha de escrever essa frase: duvidar da alegria de Deus. Até onde vou chegar, é isso que me pergunto. Até onde?
Autor: Clarice Lispector (adaptado)
O vocábulo continuamente possui mais fonemas e o mesmo número de dígrafos que o vocábulo: