A VIDA BOA E O PAÍS-PARAlSO
Todos, brasileiros ou não, somos seres de transição, divididos entre um sonho de paz e, por outro lado, a velocidade da corrida que chamamos de sucesso, seja ele feito de abundância de bens que demonstram nosso status, de poder ou notoriedade.( ... )
Mais radicalmente, ficamos a cavalo entre dois desejos. O desejo de um mundo em que - com a bênção da providência divina, irresistivel dispensadora de destinos - saberiamos aceitar nossa condição e, dentro de seus limites, construir alguma felicidade; e, por outro lado, o desejo de um mundo indefinido, no qual nossa condição poderia ser mudada e melhorada e em que, para isso poderiamos contar só com nossos esforços, sem esperar o bingo da graça divina. Em suma, praticamos duas representações opostas da felicidade: a vida boa e o sucesso.
A vida boa, em princípio, é o ideal de felicidade das saciedades tradicionais e era o Ideal da nossa antes da modernidade (embora, como dissemos, continue conosco). Para a vida boa, é necessêrio satisfazer o essencial e cultivar a arte de fazer uma festa tranquila, com pouca coisa. A técnica da vida boa é simples e antiga (a filosofia helenistica era mestre nela): é preciso saber se satisfazer não só realizando nossos desejos, mas tambêm, e sobretudo, conseguindo desejar um pouco menos.
O ideal de sucesso, ao contrário, é um sonho moderno e, a rigor, não tanto uma representação da felicidade quanto o direito (e a obrigação) de correr atrás. Para a modernidade, o que conta é a procura que motiva a mobilidade social: ser insatisfeito é ser moderno. A felicidade como condição estável, do ponto de vista moderno, sobra para os primitivos.
Entre esses dois sonhos - um desejo infinito de sucesso que nos empurra e a tranquilidade da vida boa - oscilamos, como en- Ire cidade e subúrbio, vida ativa e aposentadoria, etc. Um herói recente conseguiu conciliar os dois: Forrest Gump. O rei dos camarões - acionista da Apple Computars achando que é um negócio de frutas - consegue o imposslvel: encontra o sucesso sem deixar a simplicidade da vida boa. Mas quem topa ser como ele?
(Contando CaIligaris, Jornal D Globo, 1 de dezembro de 2009, adaptado)
Segundo o texto, 'nossa condição poderia ser mudada e melhorada" de acordo com: