Magna Concursos
2340031 Ano: 2022
Disciplina: Português
Banca: FCC
Orgão: TRT-23

O lugar onde a gente morava quase só tinha bicho

solidão e árvores.

Meu avô namorava a solidão.

Ele era um florilégio de abandono.

De tudo que me restou sobre aquele avô foi esta

imagem: ele deitado na rede com a sua namorada, mas

se a gente o retirasse da rede por alguma necessidade,

a solidão ficava destampada.

Oh, a solidão destampada!

Essa imagem da solidão que ficara dentro de mim por

anos.

Ah, o pai! O pai vaquejava e vaquejava.

Ele tinha um olhar soberbo de ave.

E nos ensinava a liberdade.

A gente então saía vagabundeando pelos matos sem aba.

Chegou que alcançamos a beira de um rio.

A manhã estava pousada na beira do rio desaberta moda

um pássaro.

Nessa hora já o morro encostava no sol.

Logo adiante vimos um quati a lamber um osso de ema.

A tarde crescia por dentro do mato.

O lugar nos perdera de rumo.

A gente se sentia como um pedaço de formiga perdida

na estrada.

Bernardo completava o abandono.

Logo encontramos uma criame de caracóis nas areias do rio.

Quase todos os caracóis eram viúvos de suas lesmas.

Contam que os urubus, finórios, desciam naquele lugar

para degustar as lesmas vivas.

Se diz que este recanto teria sido um pedaço do

Mar de Xaraiés.

Na beira da noite a gente estava sem rumo.

Bernardo apareceu e disse que vento é cavalo.

Então montamos na garupa do vento e logo chegamos em casa.

A mãe aflitíssima estava.

Ela cuidava de todos: lavava, passava e cozinhava para todos.

Porém à noite a mãe ainda encontrava uma horinha para o seu violino.

Ela tocava para nós Vivaldi.

E a gente ficava pendurado em lágrimas.

Um dia que outro contei para a Mãe que tinha visto

um passarinho a mastigar um pedaço de vento. A Mãe

disse outra vez: Já vem você com suas visões! Isso é

travessura de sua imaginação.

É a voz de Deus que habita nas crianças, nos passarinhos

e nos tontos.

A infância da palavra.

(Adaptado de: BARROS, Manoel de. Menino do mato. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015)

“Um dia que outro contei para a Mãe que tinha visto / um passarinho a mastigar um pedaço de vento.”

Ao se transpor o trecho acima para o discurso direto, a locução verbal sublinhada assume a seguinte forma:

 

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