Texto III
DEFENESTRAÇÃO
Certas palavras têm o significado errado. Falácia, por exemplo, devia ser o nome de alguma coisa
vagamente vegetal. As pessoas deveriam criar falácias em todas as suas variedades. A Falácia
Amazônica. A misteriosa Falácia Negra.
Hermeneuta deveria ser o membro de uma seita de andarilhos herméticos. Onde eles chegassem,
5 tudo se complicaria.
— Os hermeneutas estão chegando!
— Ih, agora é que ninguém vai entender mais nada...
Os hermeneutas ocupariam a cidade e paralisariam todas as atividades produtivas com seus enigmas e
frases ambíguas. Ao se retirarem deixariam a população prostrada pela confusão. Levaria semanas até
10 que as coisas recuperassem o seu sentido óbvio. Antes disso, tudo pareceria ter um sentido oculto.
— Alô...
— O que é que você quer dizer com isso?
Traquinagem devia ser uma peça mecânica.
— Vamos ter que trocar a traquinagem. E o vetor está gasto.
15 Plúmbeo devia ser o barulho que o corpo faz ao cair na água.
Mas nenhuma palavra me fascinava tanto quanto defenestração.
A princípio foi o fascínio da ignorância. Eu não sabia o seu significado, nunca me lembrava de
procurar no dicionário e imaginava coisas. Defenestrar devia ser um ato exótico praticado por poucas
pessoas. Tinha até um som lúbrico. Galanteadores de calçada deviam sussurrar no ouvido das
20 mulheres:
— Defenestras?
A resposta seria um tapa na cara. Mas algumas... Ah, algumas defenestravam.
Também podia ser algo contra pragas e insetos. As pessoas talvez mandassem defenestrar a casa.
Haveria assim defenestradores profissionais.
25 Ou quem sabe seria uma daquelas misteriosas palavras que encerravam os documentos formais?
"Nestes termos, pede defenestração..." Era uma palavra cheia de implicações. Devo tê-la usado uma
ou outra vez, como em:
— Aquele é um defenestrado.
Dando a entender que era uma pessoa, assim, como dizer? Defenestrada. Mesmo errada, era a
30 palavra exata.
Um dia, finalmente, procurei no dicionário. E aí está o Aurelião que não me deixa mentir.
"Defenestração" vem do francês “defenestration”. Substantivo feminino, ato de atirar alguém ou algo
pela janela.
Ato de atirar alguém ou algo pela janela!
35 Acabou a minha ignorância mas não a minha fascinação. Um ato como este só tem nome próprio e
lugar nos dicionários por alguma razão muito forte. Afinal, não existe, que eu saiba, nenhuma palavra
para o ato de atirar alguém ou algo pela porta, ou escada abaixo. Por que, então, defenestração?
Talvez fosse um hábito francês que caiu em desuso. Como o rapé. Um vício como o tabagismo ou as
drogas, suprimido a tempo.
40 [...]
Agora mesmo me deu uma estranha compulsão de arrancar o papel da máquina, amassá-lo e
defenestrar esta crônica. Se ela sair é porque resisti.
VERISSIMO, Luis Fernando. In: O Analista de Bagé [Adaptado]. Porto Alegre: L&PM, 1992.
De acordo com o texto III, responda às questões de números 38 a 44. |
Em “Devo tê-la usado uma ou outra vez” (l. 26 - 27), a acentuação gráfica do termo destacado justifica-se pela mesma regra empregada no seguinte vocábulo: