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Para responder às questões de 01 a 08, leia o texto abaixo.
A mágica do rádio
1 Não posso dizer que me decepcionei na primeira
2 vez em que vi um jogo de futebol no campo. Naquele
3 tempo - pelo menos em Porto Alegre - ainda não
4 havia arame ou fosso protegendo o campo da torcida,
5 podia-se ver o jogo debruçado sobre uma cerca baixa
6 de madeira, na beira do gramado, só se arriscando a
7 levar uma bolada ou ser atropelado por um jogador
8 sem freios. Sentia-se o cheiro da grama, ouvia-se o
9 xingamento entre os adversários - era outro universo.
10 Mas estranhei a ausência do locutor. Descobri que
11 futebol apenas visto (não existia, crianças, nem
12 radinho de pilha para se levar ao jogo) era muito
13 diferente de futebol "irradiado".
14 Os locutores de rádio nos acostumaram com uma
15 narrativa dramática, mesmo que nada de muito
16 emocionante estivesse acontecendo em campo. Pelo
17 rádio, os ataques do nosso time eram sempre cargas
18 épicas contra a defesa inimiga, e os gols do nosso time
19 não eram apenas bolas na rede, eram bolas na rede
20 acompanhadas por um grito triunfal, que repetíamos -
21 Goooooooool! - com entusiasmo feroz. No campo,
22 naquela primeira vez, senti falta do drama ininterrupto
23 que o locutor fornecia. O futebol ao vivo,
25 paradoxalmente, era mais incompleto do que o futebol
26 narrado.
27 A mágica do rádio era esse outro universo, feito
28 só com vozes. O rádio não era som sem imagem, uma
29 realidade pela metade. Era som criando imagens, uma
30 realidade diferente. Isso não valia apenas para o
31 futebol. O "radioteatro" era mais realista do que
32 qualquer novela da TV porque quem fornecia a
33 cenografia, a paisagem e o ambiente era o próprio
34 ouvinte, na sua cabeça - e com recursos ilimitados. O
35 próprio noticiário de rádio tinha uma autoridade que a
36 TV nunca conseguiu reproduzir, talvez porque uma voz
37 firme concentrasse mais a atenção do que a visão de
38 um locutor emitindo-a, e ainda por cima maquiado.
39 Claro que não deixei de ir ao campo para ficar em
40 casa ouvindo a narração, imaginando jogos
41 sensacionais em vez de vendo jogos nem sempre tão
42 animados. Mas só com o advento do rádio transistor,
43 que tornou possível estarmos em dois universos
44 simultaneamente - o do jogo contado e o do jogo
45 presenciado -, é que senti que minha experiência do
46 futebol estava completa. Eu tinha o futebol de fato, e o
47 futebol das vozes. O mágico.
48 Mas isso foi há muito tempo. Hoje sou um torcedor
49 relapso, reduzido a reminiscências nostálgicas. E pay-
50 per-view.
Autor: Luís Fernando Veríssimo (adaptado).
Ao analisar a palavra ilimitados, localizada à linha 34, percebe-se que sua constituição decorre do processo denominado: