Confidência do itabirano
Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.
A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.
De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil,
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...
Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!
ANDRADE, Carlos Drummond de. Confidência do itabirano. Disponível em: <http://www.casadobruxo.com.br>. Acesso em: 28 set. 2013.
Avalie as seguintes proposições:
(I) A terra natal do poeta deixou marcas em sua interioridade, em seu modo de ser.
(II) A forma pronominal presente no primeiro verso da quarta estrofe denuncia que a fala do poeta é dirigida a alguém.
(III) O último verso, em relação ao anterior, expressa uma contradição.
(IV) A condição de funcionário público explica o fato de o poeta ter se esquecido totalmente de sua terra natal.
Avaliadas as proposições, aponte a alternativa CORRETA.