Vida natural
Pois no Rio tinha um lugar com uma lareira, quando ela percebeu que, além do frio, chovia nas árvores, não pode acreditar que tanto lhe fosse dado. O acordo do mundo com aquilo que ela nem sequer sabia que precisava como numa fome. Chovia, chovia. O fogo aceso pisca para ela e para o homem(D). Ele, o homem, se ocupa do que ela nem sequer lhe agradece: ele atiça o fogo na lareira, o que não lhe é senão dever de nascimento. E ela - que é sempre inquieta, fazedora de coisas e experimentadora de curiosidades – nem se lembra sequer de atiçar o fogo: não é seu papel, pois se tem o seu homem para isso. Não sendo donzela, que o homem então cumpra sua missão. O mais que ela faz é às vezes instigá-lo: “aquela acha”, diz-lhe, “aquela ainda não pegou”. E ele um instante antes que ela acabe a frase que o esclareceria, ele, por ele mesmo, já notara a acha, homem seu que é, e já está atiçando a acha. Não a comando seu, que é a mulher de um homem e que perderia seu estado se lhe desse ordem. A outra mão dele, a livre, está ao alcance dela. Ela sabe e não a toma. Tem exatamente o que precisa: pode ter.
Ah, e dizer que isto vai acabar, que por si mesmo não pode durar. Não, ela não está se referindo ao fogo, refere-se ao que sente. O que sente nunca dura, o que sente sempre acaba, e pode nunca mais voltar(C). Encarniça-se então sobre o momento , come-lhe o fogo e o fogo doce queima, arde, flameja(B). Então, ela, que sabe que tudo vai acabar, pega a mão livre do homem e, ao prendê-la nas suas, ela fogo doce queima, arde, flameja.(A)
(LISPECTOR, C. Crônicas de amor e amizade. Rio de Janeiro: Rocco, 2010.)
A expressividade nos textos literários pode ser manifestada também pelo uso de figuras de linguagem. Assinale a alternativa que apresenta correlação INCORRETA entre a figura dada e o exemplo do texto.