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795920 Ano: 2013
Disciplina: Português
Banca: FADESP
Orgão: COREN-PA
Provas:

Como tenho inveja das amendoeiras

Enviado por Zuenir Ventura, 12.01.2013, 09h45m

Zuenir Ventura

Telefonei um dia para Rubem — o Velho Braga, que hoje faria 100 anos — perguntando-

lhe por que tinha feito das amendoeiras uma de suas musas inspiradoras, se nem brasileiras elas

eram, mas indianas, como eu acabara de saber.

Discutia-se então a revelação de que, das 600 mil árvores existentes no Rio, 84% eram de

origem exótica, e apenas 16%, nativas. Daí que a Fundação Parques e Jardins, à medida que as

estrangeiras fossem morrendo, iria substituí-las por espécimes da Mata Atlântica. Não se tratava de

xenofobia, como podia parecer; era para poupar o ecossistema da cidade, que, segundo os técnicos,

se ressentia com a invasão estrangeira. O exotismo no caso era nocivo. [...]

Rubem Braga não caía nessas pegadinhas. Não usava as plantas apenas para fazer crônicas

poéticas. Era amante e grande conhecedor de sua alma e humores. Não é à toa que plantou um dos

mais surpreendentes jardins suspensos da cidade que o filho Roberto e a nora Maria do Carmo

fazem questão de manter e cuidar até hoje.

Sua resposta foi que as amendoeiras eram “árvores desentoadas”. Nunca estão de acordo

entre si. Não se vestem nem se despem por igual. Eram como a gente: cada uma envelhecia com a

idade, conforme o dia de nascimento — com a vantagem de que a cada ano fenecem, mas também

renascem.

A partir de então passei a olhar as amendoeiras de minha rua com inveja. Fiquei

imaginando como seria bom chegar a cada junho, mês em que nasci, com o cabelo caindo, a pele

enrugada, mas podendo me refugiar em casa aguardando a muda.

Um ano depois faria minha rentrée triunfal, novinho em folha, pronto para admirar as

mulheres que, segundo Rubem, em janeiro, sob a influência do verão, “sentem o coração lânguido,

e se espreguiçam de um modo especial; começam a dizer uma coisa e param no meio, seus olhos

brilham devagar, elas ficam olhando as folhas das amendoeiras como se tivessem acabado de

descobrir um estranho passarinho”.

Meu sonho não seria a imortalidade. Nada de estender a vida, como muitos desejam. Se eu

pudesse escolher, eu preferiria esticar a juventude. Que a existência humana continuasse limitada

aos 70/80 anos, tudo bem, mas que, durante o tempo de duração, eu pudesse compartilhar com as

amendoeiras de minha rua o milagre da renovação — todos os anos.

Disponível em: http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2013/01/12/como-tenho-inveja-das-amendoeiras-por-zuenir-ventura-482051.asp Acesso em: 30 abr. 20

A contração “daí” (linha 5) e a locução “à medida que” (linha 5) estabelecem, respectivamente, relações de
 

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