Texto I
ILUMINANDO O INVISÍVEL
No fim do ano passado, o Teatro do Oprimido realizou um Festival no Teatro Glória com seus atuais sete grupos populares. Quando digo popular, digo povo; não são artistas interpretando papéis de povo, mas o povo revelado-se artista; moradores de favelas, negros, trabalhadores, empregadas domésticas – improvisam, escrevem e encenam suas obras.
No dia em que se apresentaram as domésticas, no fim do espetáculo, uma das Maria-atrizes chorou depois da cena. Perguntei por quê? Com suas palavras, que não consigo reproduzir, disse:
– Uma empregada doméstica deve ser invisível. Quanto menos seja vista, melhor. Ela põe e tira a mesa, faz a comida e a cama, lava e passa, varre, limpa, cuida das crianças... mas, sobretudo, não deve ser vista nunca. Nós aprendemos a ser invisíveis. Hoje, ensaiando no palco, reparei que um técnico cuidava de que eu estivesse bem iluminada, com a cor adequada. Aprendemos a emudecer; outro técnico colocava um microfone no meu vestido para que minha voz fosse ouvida...
– Isso é tão bom... Por que chorou?
– Porque a família para a qual eu trabalho estava inteira na plateia, no escuro, vendo e ouvindo. No final, aplausos; trabalho para eles há mais de dez anos e acho que foi a primeira vez que me viram e me ouviram. Agora sabem que eu existo. Porque fiz teatro.
Naquele palco, um ser humano invisível foi iluminado. O que mais me comoveu nesse episódio foi pensar em tantos outros invisíveis que nos rodeiam. E, justamente porque não os vemos, o salário mínimo, por exemplo, não nos comove. De repente, alguma coisa acontece: uma luz ilumina os invisíveis. [...]
BOAL, Augusto. Jornal do Brasil, mar. 2000. Augusto Boal é o criador do Teatro do Oprimido.
Veja o trecho: “no fim do espetáculo, uma das Maria-atrizes chorou depois da cena.”.
Considerando que o termo destacado representa toda a categoria das empregadas domésticas que atuam como atrizes no projeto do Teatro do Oprimido, é legítimo determinar que tal termo é exemplo de uma linguagem figurada que pode ser identificada como