A biblioteca pessoal é um anacronismo. Ocupa espaço demais em casas cada vez menores, custa muito formá-la, nunca é realmente aproveitada em proporção ao seu custo ou volume. Um livro lido, além disso, já não está em nosso espírito, sem ocupar espaço? Para que conservá-lo, então? E não são abundantes agora as bibliotecas públicas, nas quais podemos encontrar não só o que queremos, mas também mais do que queremos? A biblioteca pessoal responde a circunstâncias de tempos idos: quando se vivia em castelos ou casarões, nos quais, devido ao isolamento do mundo, era necessário ter o mundo à mão, encadernado; quando os livros eram raros e frequentemente únicos, e era imperioso possuir o cobiçado incunábulo; quando as ciências e as artes evoluíam com menos prontidão e o que os livros continham podia continuar a ter validade durante várias gerações; quando a família era mais estável e sedentária, e uma biblioteca podia ser transmitida no mesmo endereço e quarto e armários sem perigo de dispersão. Essas circunstâncias já não ocorrem. E, no entanto, há loucos que gostariam de ter todos os livros do mundo. Porque são preguiçosos demais para ir até as bibliotecas públicas; porque acham que basta olhar a lombada de uma coleção para considerar que já foi lida; porque têm vocação de coveiro e gostam de estar rodeados de mortos; porque nos atrai o objeto em si, não importa o seu conteúdo, cheirá-lo, acariciá-lo. Porque acreditamos, contra todas as evidências, que o livro é uma garantia de imortalidade e que formar uma biblioteca é como edificar um cemitério no qual gostaríamos de deixar reservada nossa sepultura.
(RIBEYRO, Julio Ramón. Prosas apátridas. Trad. de Gustavo Pacheco. Rio de Janeiro: Rocco, 2016, p. 124-125.).
Quanto às relações entre forma e conteúdo e quanto ao apoio dos recursos linguísticos na construção da argumentação, são apresentadas as seguintes afirmações:
I. A ideia de que a biblioteca pessoal tornou-se obsoleta ganha reforço pela repetição de uma mesma palavra em dois períodos sucessivos, nos trechos “responde a circunstâncias de tempos idos” e “Essas circunstâncias já não ocorrem”; e pelo uso do arcaísmo “incunábulo”, que ilustra, no plano vocabular, com força de exemplo, o efeito de estranhamento do que é anacrônico.
II. Dentre os argumentos mobilizados para contrapor os modos antigos e os contemporâneos de produzir e armazenar conhecimento, estão a diferença de ritmo no avanço e atualização dos saberes científicos e artísticos; e a existência de um perfil mais dispersivo das novas “gerações”, palavra que no texto, se opõe ao sentido de “família”.
III. Embora caracterize negativamente a obstinação extemporânea dos que insistem em manter suas bibliotecas particulares, tachando-os de “loucos” e “preguiçosos”, o enunciador acaba por se incluir entre os que gostariam de acumular a totalidade dos livros publicados no mundo, adotando para isso pronomes e verbos na primeira pessoa do plural, nos dois últimos períodos do texto.
É correto o que se afirma apenas em