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A insistência com que a presidenta fala às brasileiras, além de causar a ira do senador goiano Demóstenes Torres, acusando-a de fazer um governo de gênero, levando a crer que está deixando para um segundo plano o eleitorado masculino, atrai a curiosidade dos analistas.
Na edição de 22 de setembro de 2011, a Folha de S Paulo tem por foto principal de capa a abertura da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, onde se lê na legenda: “em discurso de 25 minutos, Dilma destacou o fato de, pela primeira vez, uma mulher abrir a Assembleia Geral”. Essa forma de endereçamento de sua comunicação, a partir do gênero feminino, poderia correr o risco de ser mal interpretada naquilo que realmente diz.
Nelson de Sá, articulista da Folha, diz referindo-se aos sites de jornais: “E o Daily Beast, site da Newsweek, revista que dedicou a ela a sua capa, deu como manchete ‘Dilma se bate pelas mulheres’. E continua: “embora tenha seguido o roteiro lulista de se apresentar como representante de um grupo oprimido, as mulheres, e defender a nação palestina, seu foco maior e urgente estava na deterioração da economia”. Em seus quatro primeiros parágrafos, a presidenta Dilma fala a partir de seu “lugar de fala”, presidenta do Brasil. Assim se expressa na página 16A da Folha: “Pela primeira vez, na história das Nações Unidas, uma voz feminina inaugura o debate geral. É a voz da democracia e da igualdade se ampliando nesta tribuna!$ ^{(A)} !$ que tem o compromisso de ser a mais representativa do mundo. É com humildade pessoal, mas, com justificado orgulho de mulher!$ ^{(B)} !$, que vivo esse momento histórico. Divido esta emoção com mais da metade dos seres humanos deste planeta, que, como eu, nasceram mulher, e que, com tenacidade, estão ocupando o lugar que merecem no mundo. Tenho certeza, senhoras e senhores, de que este será o século das mulheres. Na língua portuguesa, palavras como vida, alma e esperança pertencem ao gênero feminino. E são também femininas duas outras palavras muito especiais para mim: coragem e sinceridade!$ ^{(C)} !$. Pois é com coragem e sinceridade que quero lhes falar no dia de hoje”.
Ora, este seu lugar de fala e o desejo de se comunicar com as mulheres de todo o mundo mostrariam um certo partis-pris. Afinal o mundo é composto de homens e mulheres. Caímos na questão das figuras de linguagem, muito comuns em discursos pomposos, como o da ONU. São metáforas, isto é, deslocamentos de sentidos (meta-forum = lugar além), desejo de falar para toda a humanidade, mas personificando-se nas mulheres. São metonímias, em que se ajusta um sentido ao outro, substitui-se um sentido pelo outro, mas mantém-se a coerência do discurso. Diria que são principalmente alegorias, figuras que dão ao discurso a ideia do outro (da outra), presente na raiz grega da palavra. Quando se fala alegoricamente, quer-se chamar a presença do outro no discurso. Assim, a presidenta, ao falar às mulheres, também fala ao outro. Enfaticamente deseja lembrar a figura da mulher, aquela que há muito, neste mundo, vem sendo subjugada, vem sendo minoria. Mas com isso não deseja excluir de sua fala o seu semelhante!$ ^{(D)} !$.
A presidenta Dilma, certamente por uma questão de marketing de seu governo, se permite dizer que este é o século das mulheres. Existe também uma visão diabólica da alegoria, que luta contra a mesmice do simbólico. É uma questão de dinâmica discursiva, prevista nos jogos de linguagem, feitos de consensos e discordâncias!$ ^{(E)} !$. Dilma pode ser presidenta e presidente, mas prioriza a sua interlocução com as mulheres e, com isso, não deixa de falar com os homens. Possui, certamente, um discurso afinado com a emancipação feminina, mas não faz um governo de gênero, como clama o senador goiano, ela discursa metafórica e alegoricamente dos lugares femininos, que certamente lhe dão maior sabor. Coisas e ideias de seu marqueteiro? Pode ser, mas muito mais a manifestação do poder retórico da linguagem.
Adaptado de: DAYRELL, Sérgio. Por que a presidenta fala às mulheres? Jornal O Povo. Disponível em:
http://publica.opovo.com.br/page,528,109.html?i=2308414&meta_type=noticia&schema=noticia_128033434835
Há contradição no seguinte trecho:
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