O primeiro poema em Língua Portuguesa foi, na verdade, uma cantiga: a Cantiga da Ribeirinha, que marcou o início do Trovadorismo, movimento considerado a primeira escola literária portuguesa entre os séculos XII e XIV. De lá para cá, nasceu a literatura brasileira com formatos, escolas e movimentos próprios, mas sem perder o DNA de confabular com outras artes.
“Sempre houve diálogo e contaminação entre as artes. E a poesia vive desde sempre uma relação umbilical com a música. No entanto, acho que desde o início do século XX esse diálogo está na ordem do dia, no centro da preocupação dos artistas. E isso se deve em muito à consciência do limite da linguagem verbal”, concorda Ricardo Lísias, escritor e professor de literatura.
Do seu ponto de vista, o diálogo com outras artes começa ou se intensifica quando os escritores mais(I) conscientes do seu ofício percebem com clareza as deficiências e as dificuldades que a expressão verbal impõe. Assim, como a ferramenta de trabalho é limitada – “a linguagem não abarca o mundo”, ele diz –, escritores tendem a procurar outros caminhos que possam auxiliá-los a expressar tudo de que necessitam. O diálogo então é acirrado quando entra em crise não apenas a forma de expressão, mas as próprias definições de gênero literário e, depois, artístico. Os autores tendem, assim, a fugir de prisões de toda ordem e passam a trabalhar com várias ferramentas diferentes. É um sinal e uma consequência ao mesmo tempo da crise que a literatura em particular e as artes em geral têm vivido desde o começo do modernismo, no final do século XIX. “A poesia soube trabalhar muito bem com essa indeterminação de linguagens e depois de gêneros. A prosa, com um pouco mais de dificuldade, mas parece estar também se afinando a isso”, afirma o escritor.
Em consonância à ideia de crise, o sociólogo, escritor e professor Muniz Sodré recorre ao pensamento do russo Pitirim Sorokin em defesa da teoria de um ponto de saturação, que as artes – inclusive a literatura – também teriam alcançado nas últimas décadas: “Assim como a água atinge um ponto de ebulição quando ferve, isso acontece em qualquer coisa, na sociedade e nas artes também.”
Em relação à busca(II) de novos caminhos artísticos e sobre a mistura de linguagens, o professor lembra que há dois aspectos separados: por um lado, há o escritor que dá um salto para outra prática artística, isto é, outra forma específica, como Tony Bellotto e Chico Buarque, que tanto escrevem livros quanto fazem música; e, por outro lado, há a mistura de linguagens da mesma forma expressiva, como o filme Lavoura arcaica, de Luiz Fernando Carvalho, que não apenas é baseado no livro homônimo de Raduan Nassar, como se manteve o mais fiel possível à narrativa literária.
De uma forma ou de outra, Sodré descreve todos esses movimentos como matéria(III) de uma hibridização dos diversos espaços sociais, artísticos e filosóficos. “As ciências já praticam isso.” Para ele, o espírito do tempo – em alemão zeitgeist, conceito popularizado pelo filósofo Hegel – é da ordem do híbrido, e o híbrido está cada vez mais valorizado por aqueles que certificam a arte, isto é, os críticos. “Não há nenhum objeto por si só. A arte acontece, subjetivamente, nos olhos de quem vê. E quem vê hoje está atribuindo valor à hibridização.”
Adaptado de: MICHALSKI, J. Vire o verso: da integração da literatura com outras artes e vice-versa.
Disponível em: http://www.sesc.com.br/portal/site/palavra/ensaio/ensaios_ interna/vire+o+verso.
Acesso em: 09 dez. 2019.
Considere as seguintes propostas de substituição de palavras do texto.
I - A substituição de mais por também provocaria alteração no sentido da frase.
II - A substituição de busca por procura provocaria alteração no sentido da frase.
III - A substituição de matéria por substância não provocaria alteração no sentido da frase.
Quais estão corretas?