Instrução: Leia atentamente o texto e responda à questão.
O caminho das pedras
Era um rapaz quieto, de poucos amigos. Gostava de pescar, mas sempre sozinho. Sonhador, também
era. Acalentava sonhos elaborados, que sabia quase impossíveis. Sonhos de um dia ser um grande artista, um
pintor, talvez, ou um músico. Quem sabe um maestro. Nada fazia para concretizar tais sonhos, mas
tampouco sofria. Talvez se convencesse de que sonhar é melhor do que viver.
Talvez, pela mesma razão, gostasse tanto de pescar. Alguém já disse que pescar é um esporte que
consiste de uma vara, com um peixe numa ponta e um idiota na outra. Mas o rapaz achava isso uma
injustiça. A pescaria, principalmente se solitária, é um momento em que o pescador se vê propenso às mais
profundas reflexões. É um ato de inteligência.
E foi pensando assim que, naquele fim de tarde, pegou seus apetrechos - a maleta de duas cores,
cheia de faquinhas, chumbadas, anzóis e mais a vara de pesca – e tomou o caminho do mirante, beirando os
costões de pedra. Caminhou pela amurada estreita, de pedras sobrepostas, vendo o brilho do mar lá embaixo,
de um verde escuro, denso, tão diverso do verde aguado do capinzal que se estendia pela encosta. O sol de
verão já ia baixo no horizonte, na certa uma bola vermelha, mas dali de onde estava não podia vê-lo, as
montanhas impediam. Via apenas o avermelhado do céu no ponto em que este se juntava ao mar.
(SEIXAS, H. O amigo do vento. Crônicas. São Paulo: Moderna, 2015.)