TEXTO IV - Base para responder à questão.
Reflexões sobre ensino de gramática na realidade educacional brasileira
O ensino de gramática no contexto educacional brasileiro tem sido primordialmente prescritivo, baseado
nas regras da gramática normativa tida como o manual do bem falar (ILARI, 1992). A língua portuguesa é,
na prática, muitas vezes considerada homogênea, apesar de o Brasil ser um país marcado por grandes
contrastes, aliás, em vários sentidos. A variedade padrão é aquela ensinada na escola, instituição que representa uma força corretiva e unificadora da língua. A despeito do que preconizam os manuais gramaticais, a
heterogeneidade linguística está estabelecida no país e é influenciada tanto por fatores diatópicos, geográficos, quanto por fatores diastráticos, sociais. Devido ao acesso limitado à ampla e efetiva escolarização, as
diferenças linguísticas tornam-se acentuadas e, sobretudo, cada vez mais distantes da norma culta.
De um lado, há os que defendem o respeito com relação à variedade linguística das classes populares, pois
sua linguagem é considerada tão válida para a comunicação quanto a língua padrão. Por outro lado, há os
que afirmam a necessidade de as classes populares aprenderem a usar a variedade socialmente privilegiada, visto que a posse dessa linguagem constitui instrumento fundamental e indispensável na luta pela su -
peração das desigualdades sociais (POSSENTI, 1992). Mas o que gostaríamos de problematizar inicialmente
é o seguinte: diante da variedade linguística do português, como fica a questão do ensino? Qual variedade
deve ser ensinada pelo professor de língua portuguesa?
A primeira corrente expressa uma ideia muito simplista da língua, uma vez que restringe seu uso apenas
à comunicação, ignorando as demais concepções de linguagem. A língua(gem), além de se prestar ao ato
comunicativo, configura a expressão do pensamento, sendo, sobretudo, uma forma de interação humana, política e social. É sob essa ótica que defendemos que as atividades de ensino devem oportunizar aos alunos o domínio de um sistema valorizado, ou seja, da norma padrão, sem que isso signifique depreciação da
variante linguística de seu grupo social e regional de origem.
SILVA, Kleber Aparecido da; PILATI, Eloisa; e DIAS, Juliana de Freitas. O ensino de gramática na contemporaneidade: delimitando
e atravessando as fronteiras na formação inicial de professores de língua portuguesa. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S1984-63982010000400008. Acesso em: 07 jul. 2025.