Leia o texto a seguir e responda à questão.
Eu nunca imaginei que escreveria sobre eutanásia. Sempre enxerguei o direito à vida como algo
absoluto, intocável, um valor que não se negocia. Mas, quando a vida passa a ser apenas dor, quando
o sorriso já não aparece e os dias se tornam uma repetição silenciosa de sofrimento, comecei a me
perguntar: é possível falar sobre eutanásia sem que isso signifique desistir da vida?
Essa reflexão começou há cerca de dois meses, quando minha mãe recebeu o diagnóstico de câncer no
fígado em estágio irreversível. Até então, eu conhecia o câncer pela ótica das histórias de luta: pessoas
encarando quimioterapia, celebrando cada pequena vitória, vivendo o brilho da esperança. Mas agora
eu vejo o outro lado– aquele que raramente aparece nas conversas. O lado dos corredores silenciosos
da ala paliativa, onde minha mãe está. Um espaço em que a medicina já não busca curar, mas apenas
aliviar, suavizar o inevitável.
Ali, alta não significa voltar para casa; significa partir. E, como filho, vivo um dilema que não sei explicar
completamente. Eu tento ser forte o suficiente para sustentar emocionalmente a minha mãe, enquanto
sustento também uma mentira: digo que ela vai melhorar, que logo sairá dali. Digo isso a ela– e a mim
mesmo– porque é a única forma de manter viva a esperança que ainda resta. Mas, por dentro, estou
despedaçado.
Sinto que estou vivendo um tipo de luto com minha mãe ainda viva. É um luto estranho, silencioso, que
não tem começo nem fim definido. Eu a abraço todos os dias sabendo que o tempo está escapando
pelos dedos, e me dói perceber que, embora ela ainda esteja aqui, já estou me despedindo dela em
pequenas parcelas. Cada olhar mais cansado, cada gesto mais frágil, cada frase interrompida pela dor– tudo isso pesa como se eu estivesse perdendo um pedaço de nós antes da hora. [...]
Diante de tudo o que estou vivendo, sinto que o Brasil precisa começar a discutir a eutanásia com serie
dade e humanidade. Não como uma fuga, mas como um possível gesto de dignidade para aqueles que
já não têm escolha sobre nada, exceto talvez sobre como desejam partir. A dor que sinto todos os dias
me ensinou algo que nunca imaginei aprender: amar também é querer que o sofrimento acabe. Talvez
seja justamente esse amor, esse luto em vida, essa despedida contínua, que nos obrigue a enfrentar
a pergunta que hoje me acompanha em silêncio: quando a vida deixa de ser vida, não deveríamos ao
menos conversar sobre outras possibilidades?
(Adaptado de: RAMALHO, Fábio. Até que ponto preservar a vida é apenas prolongar a dor? Folha de S.Paulo, 23 nov. 2025. A4.
Opinião.)
I. A conjunção “mas”, nas três ocorrências nos dois primeiros parágrafos, apresenta o mesmo efeito de sentido: opor as informações ditas anteriormente.
II. No período composto “É um luto estranho, silencioso, que não tem começo nem fim definido”, o termo “nem” expressa adição de ideia.
III. No trecho “e me dói perceber que, embora ela ainda esteja aqui, já estou me despedindo dela em pequenas parcelas”, a oração entre vírgulas é explicativa.
IV. Na oração “quando a vida deixa de ser vida”, há um efeito de sentido condicional em relação ao período posterior.
Assinale a alternativa correta.