Os sonhos brasileiros
Quando eu era menina, as famílias ricas
costumavam escolher um ano de maior
prosperidade e programavam a sua viagem à
Europa. Iam marido, mulher, filharada, amaseca, e avô em exercício, às vezes um tio mais
jovem. Os invejosos — todo mundo —
zombavam: será que tinham fretado o navio?
Navio aliás invisível, pois que tomado no Rio
(talvez também no Recife) onde havia porto para
grandes transatlânticos. O período dedicado ao
banho de civilização era em geral de seis meses.
E o país de destino era, quase invariavelmente,
Paris ou Portugal. Falo Paris como país, porque
ninguém dizia que ia para a França. Mas somente
a Cidade Luz. Portugal era escolhido pelos
lusitanos bem-sucedidos. [...]
Em Paris, os provisórios nômades se
instalavam quase invariavelmente no Grand
Hotel Du Louvre. (Ou diziam os língua-ruim, se
instalavam mesmo era numa pensão barata na
Banlieuse, onde nem tinha metrô). Para nós,
brasileiros daquele tempo, metrô era o requinte,
o selo da mais extrema civilização.
Passados os seis meses de ricos, a família
regressava, unida como saíra, e portando em
profusão malas de porão e camarote novíssimas.
Invariavelmente traziam um serviço de jantar em
porcelana e até um serviço de cristal Baccarat,
comprado na rue du Paradis. [...] E, depois
daquela viagem oficial, a família passava o resto
da vida curtindo as glórias da temporada. As
moçoilas que já tinham aprendido o ABC do
francês cá na terra, no colégio de freiras,
voltavam cochichando segredinhos no idioma
dos eleitos. Às vezes nascia por lá uma criança
que, em memória do evento, fora registrada no
Consulado Brasileiro, mas com nome francês.
[...]
Passaram-se os anos, o mundo mudou. Os
Estados Unidos assumiram a liderança da
moderna civilização. Acabaram-se, depois da Segunda Grande Guerra, os navios que faziam a
linha Rio-Havre. Entramos na era dos jatos. E
hoje também mudou o eixo turístico: de repente
brasileiro descobria Miami ou Miami descobriu
os brasileiros. Será o conforto da língua? Os
iniciantes, pelo menos, acreditam que lá só se
fala espanhol. E depois tem o Walt Disney e seus
palácios feéricos. E principalmente tem as
excursões — dizem os entendidos que é mais
barato passar 15 dias em Miami do que em
Maceió. É possível, nós ainda não organizamos o
nosso turismo. Sinal de jovem pai com sucesso
na profissão é levar os filhos pequenos para o
Disneyworld. As mulheres fazem compras com
frenesi. Os homens também se enchem de
maquininhas — fax, telefone celular, micros!
E ficamos nós, os invejosos, com o olho
comprido em Miami, como outrora em Paris. Se
não fosse o preço escandaloso do dólar! Mas é
verdade que os pacotes turísticos são bem em
conta. E tem até quem faça a módicas prestações!
Ai (suspiro), a esperança é a última que morre…
QUEIROZ, R. Os sonhos brasileiros. Jornal O Dia,
Rio de Janeiro, 1992. Disponível em
<https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/17950/ossonhos-brasileiros>.
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