Texto: Adultização
Um modo de exploração de crianças na
internet gerou intenso debate no Brasil após
viralização recente, nas redes sociais, de vídeo em
que o influenciador Felipe Brassanim Pereira
abordou o tema. Trata-se da adultização, uma
aceleração forçada do desenvolvimento infantil,
fazendo com que as crianças adotem
comportamentos ou responsabilidades que não
correspondem à idade delas. Esse processo pode
acontecer de várias formas: ao sobrecarregar a
criança com tarefas de adulto, ao lhe impor uma
cobrança excessiva sobre desempenho escolar ou
esportivo, ao permitir que ela tenha acesso a
conteúdos inadequados para a idade.
Guilherme Polanczyk, professor da
Faculdade de Medicina da Universidade de São
Paulo, afirma que muitos pais têm a ideia de que
acelerar o desenvolvimento de uma criança pode
torná-la mais madura: “A gente vê isso em crianças
muito pequenas, com um ano e meio, em que os
pais querem tirar fraldas. Muitas vezes, têm a
tendência de os pais ficarem orgulhosos quando
os filhos eventualmente não querem mais brincar.”
Mas, segundo o médico, pular etapas não é
saudável: nosso cérebro evolui conforme nos
desenvolvemos – e, nos primeiros anos de vida,
ainda não estamos preparados para lidar com
pressões, tarefas e algumas emoções.
Um relatório do Comitê Interdepartamental
sobre Deterioração Física, produzido pelo governo
britânico em 1904, já alertava para os efeitos
negativos desse processo. “Naquela época, o
fenômeno era muito preocupante por causa, por
exemplo, da primeira fase da industrialização, em
que havia crianças trabalhando, crianças
pequenas que deveriam estar na escola, em
fornerias e metalúrgicas, em lugares insalubres”, explica Anderson Nitsche, neuropediatra no
Hospital Pequeno Príncipe. Com o passar dos
anos, novos estudos revelaram que pessoas que
são submetidas à adultização têm mais chance de
sofrer de ansiedade, depressão, dificuldade de
socialização, falta de empatia, problemas no
processo de aprendizagem e atenção dispersa.
Embora a adultização seja um fenômeno
antigo, ela ganhou uma nova dimensão com as
redes sociais. Com cada vez mais acesso às telas
e à internet, as crianças passaram a ter contato
com muito conteúdo – e, muitas vezes, viraram
elas próprias criadoras e influenciadoras nas redes
sociais. Pesquisa recente, realizada pelo Centro
Regional de Estudos para o Desenvolvimento da
Sociedade da Informação, mostrou que 93% dos
brasileiros entre 9 e 16 anos, ou seja, mais de 24
milhões de crianças e adolescentes, são usuários
da internet. Pesquisas científicas indicam que a
constante exposição às redes sociais ativa o
circuito de recompensa do cérebro e pode
provocar uma enxurrada de dopamina,
neurotransmissor ligado ao bem-estar. Esse
mecanismo pode ser altamente viciante: a
dopamina gera o desejo de repetir a experiência,
com mais frequência e intensidade.
O que fazer? Do ponto de vista coletivo,
vários projetos de lei sobre o assunto foram
apresentados nos últimos anos. Atualmente, o que
está mais avançado é o PL 2628, que já foi
aprovado no Senado Federal e estabelece
deveres de cuidado das plataformas digitais com
os mais jovens, a remoção de conteúdos que
violem os direitos dos menores de idade e a
criação de mecanismos de controle parental.
“Nesse momento, existe um movimento
internacional de regulação das mídias, do que nós
chamamos de big techs. (...)”, afirma Evelyn Eisenstein, coordenadora do Grupo de Trabalho
Saúde Digital da Sociedade Brasileira de Pediatria.
Do ponto de vista individual, há uma série
de cuidados no que diz respeito ao
compartilhamento de conteúdos envolvendo
crianças na internet, como evitar a exposição
excessiva nas redes sociais. Fotos e vídeos
aparentemente inofensivos, por exemplo, podem
acabar caindo em cadeias internacionais de
pedofilia. Outra recomendação dos especialistas é
controlar o tempo de uso de celulares, tablets e
smartphones das crianças.
“Vai passear com seus filhos, em um local
com natureza. Vai ver a borboletinha, vai ver a cor
da flor. Deixa essa criança descobrir o mundo, fora
das telas. O gatinho que ela vê na tela é
bidimensional. O gatinho que pula ali no colo dela
é tridimensional”, destaca Evelyn Eisenstein.
ANDRÉ BIERNATH
Adaptado de bbc.com, 15/08/2025.
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