Hoje eu fui adulto
08h12
Acordei com a certeza de que hoje seria o dia. O dia em
que eu colocaria a vida em ordem. Eu não digo “organizar”,
porque “organizar” é uma palavra que dá azar. A vida
escuta e se sente desafiada. Então eu pensei “apenas
alinhar algumas coisas”, com a humildade estratégica de
quem quer vencer por cansaço.
08h40
Primeira tarefa de adulto: pagar uma conta antes do
vencimento. Um clássico. Abri o aplicativo do banco e, por
algum motivo, ele me pediu para reconhecer o rosto. O
meu rosto, às 08h40, parecia o de alguém que acabou de
sair de uma audiência de cinco horas. O app não
reconheceu. Eu também não. Tentamos três vezes e, na
terceira, senti que não era uma falha técnica, era um
comentário.
09h15
Liguei para resolver uma pendência simples. A gravação
me chamou de “você” com uma alegria artificial, como se a
máquina tivesse um plano para mim. “Para continuar,
digite 1.” Digitei 1. “Desculpe, não entendi.” Digitei 1 de
novo, com mais convicção, como se convicção fosse
compatível com teclado. “Desculpe, não entendi.” Em
algum lugar, alguém programou uma voz para pedir
desculpas sem intenção de mudar de comportamento. Um
espelho.
09h58
Fui ao mercado com uma lista. A lista era curta, porque eu
estava tentando ser uma pessoa melhor. Comprei tudo o
que estava na lista, mais três itens que não estavam, e saí
com a sensação de vitória. Na porta, percebi que esqueci
exatamente o item principal. A vida tem senso de humor.
Eu também, mas o dela é mais eficiente.
11h07
Decidi enfrentar o armário. Existe um tipo de maturidade
que não aparece em currículo: a coragem de abrir uma
gaveta e não fechar com força. Tirei uma pilha de papéis
antigos, garantias de coisas que já nem existem, contratos
de serviços que eu nem lembro por que contratei, e uma
nota fiscal de 2017 que parecia ter sobrevivido por
teimosia. Em algum momento, pensei: “Eu devia digitalizar
isso.” Logo depois, pensei: “Eu devia digitalizar minha
personalidade.”
12h23
Almocei “de forma consciente”. Tradução: comi olhando
para a janela, fingindo que eu era uma pessoa
contemplativa e não alguém que estava fugindo de
notificações. A comida estava boa, e eu senti uma gratidão
sincera por ainda existir arroz no mundo. Adulto é isso
também, eu acho, elogiar o básico.
14h10
Resolvi fazer exercício de adulto: dizer “não”. Recebi uma
mensagem pedindo um favor. Eu estava cansado e
atrasado com tudo, então eu ia dizer “não”. Mas eu disse
“claro”, porque meu “não” ainda está em fase de
alfabetização. Para compensar, eu escrevi “claro” sem
ponto de exclamação, que é o meu jeito atual de impor
limites.
15h36
Tentei marcar uma consulta. O atendente pediu
documento, data de nascimento, endereço, telefone, e,
pelo tom, quase pediu um relato completo das minhas
últimas cinco decisões. No fim, não tinha horário. Eu
agradeci, como se a ausência de horário fosse uma
gentileza oferecida exclusivamente a mim. Desliguei e
senti uma coisa estranha, uma mistura de impotência e
alívio. Talvez eu não quisesse mesmo resolver nada hoje.
Talvez eu goste desse caos, desde que eu possa reclamar
dele com propriedade.
18h02
Voltei para casa com sacolas e uma dignidade frágil.
Coloquei tudo no lugar e, por quinze minutos, a casa
pareceu uma propaganda de vida adulta. Aí eu lembrei da
conta que eu não paguei, da pendência que eu não resolvi,
do favor que eu aceitei, e do item principal do mercado
que eu esqueci. A propaganda acabou, mas ficou a trilha
sonora da culpa.
21h17
Pensei em escrever um “plano” para amanhã. Listei metas,
horários, prioridades. Li o que escrevi e achei bonito.
Quase poético. Eu tenho um talento real para planejar
uma pessoa que eu ainda não sou.
23h04
Conclusão do dia: eu fui adulto, sim. Só que do jeito que
dá. Adulto não é alguém que controla tudo. Adulto é
alguém que falha, anota mentalmente a falha, e tenta
falhar com um pouco mais de estilo na próxima vez. Hoje
eu falhei com elegância moderada. Amanhã, se a vida
deixar, eu subo o nível.
Fonte: Banca Examinadora