Assalto
Na feira, a senhora protestou a altos brados contra o preço do chuchu:
— Isto é um assalto!
Houve um rebuliço. Os que estavam perto fugiram. Alguém,
correndo, foi chamar o guarda. Um minuto depois, a rua inteira,
atravancada, mas provida de admirável serviço de comunicação espontânea, sabia que se estava perpetrando um assalto
ao banco. Mas que banco? Havia banco naquela rua? Evidente
que sim, pois do contrário como poderia ser assaltado?
— Um assalto! Um assalto! — a senhora continuava a
exclamar, e quem não tinha escutado escutou, multiplicando a
notícia. Aquela voz subindo do mar de barracas e legumes era
como a própria sirena policial, documentando, por seu uivo, a
ocorrência grave, que fatalmente se estaria consumando ali,
na claridade do dia, sem que ninguém pudesse evitá-la.
Moleques de carrinho corriam em todas as direções, atropelando-se uns aos outros. Queriam salvar as mercadorias
que transportavam. Não era o instinto de propriedade que
os impelia. Sentiam-se responsáveis pelo transporte. E no
atropelo da fuga, pacotes rasgavam-se, melancias rolavam,
tomates esborrachavam-se no asfalto. Se a fruta cai no chão,
já não é de ninguém; é de qualquer um, inclusive do transportador. Em ocasiões de assalto, quem é que vai reclamar uma
penca de bananas meio amassadas?
(Carlos Drummond de Andrade, 70 historinhas. Adaptado)
De acordo com a norma-padrão, as lacunas devem ser preenchidas, respectivamente, com: