TEXTO 1
O totalitarismo neoliberal
O totalitarismo neoliberal pratica, como dissemos, uma outra
forma de imperialismo e, não tendo o Estado nacional como
enclave territorial do capital, não precisa de nacionalismos
extremados. Sua grande novidade está em definir todas as
esferas sociais e políticas não apenas como organizações, mas
como um tipo determinado de organização que percorre a
sociedade de ponta a ponta e de cima a baixo: a empresa –
a escola é uma empresa, o hospital é uma empresa, o centro
cultural é uma empresa. Eis por que o Estado é concebido
como empresa, sendo por isso espelho da sociedade, e não o
contrário, como nos antigos totalitarismos. Vai além: encobre
o desemprego estrutural por meio da chamada uberização
do trabalho e por isso define o indivíduo não como membro
de uma classe social, mas como um empreendimento, uma
empresa individual ou “capital humano”, ou como empresário
de si mesmo, destinado à competição mortal em todas as
organizações, dominado pelo princípio universal da concorrência
disfarçada sob o nome de meritocracia (é o que chamo de
neocalvinismo). O salário não é visto como tal, e sim como
renda individual, e a educação é considerada um investimento
para que a criança e o jovem aprendam a desempenhar
comportamentos competitivos. Dessa maneira, desde o
nascimento até a entrada no mercado de trabalho, o indivíduo é
treinado para ser um investimento bem-sucedido e a interiorizar
a culpa quando não vence a competição, desencadeando ódios,
ressentimentos e violências de todo tipo, particularmente
contra imigrantes, migrantes, negros, índios, idosos, mendigos,
sofredores mentais, LGBTQ+, destroçando a percepção de si
como membro ou parte de uma classe social, destruindo formas
de solidariedade e desencadeando práticas de extermínio.
CHAUÍ, M. Anacronismo e Irrupción, n. 18, maio-out. 2020.
TEXTO 2
Após a exposição dos conceitos de meritocracia, capital humano
e empreendedor de si, um professor de filosofia apresentou os
seguintes dados para os estudantes da 3ª série do Ensino Médio:
• Desigualdade na ocupação de cargos gerenciais: em 2019,
os homens ocupavam 62,6% dos cargos gerenciais no Brasil,
enquanto as mulheres representavam apenas 37,4%.
• Diferença salarial por gênero: em 2019, os homens recebiam,
em média, R$ 3 946,00, enquanto as mulheres ganhavam
R$ 2 680,00, resultando em uma diferença salarial de 47,24%.
• Empreendedorismo por raça e gênero: entre os
28,6 milhões de empreendedores existentes no Brasil,
9,8 milhões são homens negros e 8,7 milhões são
brancos; 5 milhões são mulheres brancas e 4,7 milhões
são negras; além disso, 39% das mulheres brancas têm
o Ensino Superior completo, enquanto 45% dos homens
negros têm apenas o Ensino Fundamental ou menos.
O perfil do empreendedorismo por raça/cor e gênero no Brasil.
Disponível em: www.sebrae.com.br.
Acesso em: 24 maio 2025.