Leia o texto a seguir para responder a questão.
Crônica do pão e da tradição
Não era apenas o fato dele ser o melhor
pão do mundo, era o pão da minha avó. E não era
só o pão, era todo o mistério em torno dele que
me intrigava quando criança. Ela me contava
histórias desde o cultivo do trigo à descoberta da
fermentação, sobre como os primeiros pães eram
trabalhados, moldados e assados. Uma aula sobre
a fabulosa e milenar tríade base: farinha de trigo,
água
e
sal.
Os densos pães de minha avó refletiam um tanto
de sua personalidade, tão cheios de segredos e
truques que só ela parecia saber. O universo se
abria dentro de sua cozinha quando eu a
observava se deleitar dentre os pães. Com
movimentos certeiros minha avó sovava as
massas elásticas, acrescentava em alguns pães
gordura, em outros especiarias inusitadas. (...)
Com uma umidade ideal, algumas tardes
se faziam mais especiais que as outras. Minha
avó as comemorava, religiosamente, indo para a
cozinha quando o clima estava a seu favor. Ela,
em seu pequeno forno a lenha, trabalhava
incessantemente para que a temperatura e a
umidade fossem ideais para seus pães, e
explicava a mim a importância desses dois
elementos ao se assar um bom pão.
Ela, perfeccionista, dizia que o seu
cuidado era em respeito às leveduras. Brincava
me dizendo que toda vez que colocava a massa
para descansar, as leveduras trabalhariam por ela,
que, por sua vez, descansaria. “Pão é vida, minha
neta!”. E também era, notoriamente, um dos
motivos que deixava a minha avó tão viva.
Sua bisneta nasceu. Tentei ensinar a
minha filha, com muita responsabilidade, tudo o
que minha avó havia me ensinado. Minha filha,
com nojo da elasticidade da massa, intrigada ao
saber que as leveduras eram organismos vivos e
com dor nos braços de tanto sovar as massas, de
forma muito espontânea, me questionou: “Mãe,
não é mais fácil comprar?”.
Naquele momento me senti frustrada em
todos os sentidos, mas principalmente como mãe, não conseguindo despertar em minha filha toda a
curiosidade que minha avó, com tanta sabedoria,
me despertou. Tudo nela e na forma com que ela
fazia seus pães era fascinante para a criança que
fui. O tempo é outro! Mas, como se fosse hoje, o
aroma dos pães de minha avó assombra as
minhas narinas tão saudosas.
NOCE, Dani. Crônica do pão e da tradição. Gastronomia
literária .
Disponível
em <https://www.daninoce.com.br/gastronomia/gas
tronomia-literaria-ickfd/cronica-do-pao-e-da
tradicao/>. .
A palavra destacada no trecho acima possui o sentido de: