Texto 1 (Para a Questão)
A visita da borboleta
Discorram meus colegas sobre assuntos graúdos,
nacionais e internacionais, que hoje eu fico com as
borboletas. Pela manhã, uma delas, de espécie comum e
pequena, entrou pela janela e veio tomar café comigo.
Mais propriamente, visitar-me na hora do café. Não
pousou na xícara nem nos biscoitos nem na margarina.
Limitou-se a dar uns voleios em torno da mesa, e retirou-se, deixando a lembrança agradável de sua visita. Embora
cordial, estava apressada. Todas as borboletas são
apressadas por natureza. Vivem um momento breve e não
podem perder tempo com um cronista fútil, se bem que
parecesse dizer, com seus volteios: "Adoro a futilidade".
Naturalmente, fiquei todo concho com a visita:
não é qualquer cronista que recebe agrados dessa ordem.
Satisfeito com a minha importância, pois até as borboletas
me consideram, retomei o mau hábito de ler jornal
tomando café. Então me deparei com a notícia de que ia
realizar-se no bairro do Grajaú uma vigília ecológica em
defesa das borboletas ameaçadas de extinção.
Compreendi: a visita não fora gratuita, vinha chamar-me
atenção para o fato. Mesmo assim, continuei apreciando a
delicadeza. O lepidóptero (permitam-me chamá-lo pelo
seu nome livresco) era meu leitor, imaginem.
Ora, bem que pessoas ocupadas e lutando pela
burra da vida no Rio de Janeiro se lembram de dedicar um
sábado de repouso à tarefa de tomar conta das
borboletas, indo até as ruínas da antiga fazenda de Vila
Rica para dizer, exemplar, doutrinar: "Não cacem nem
matem nem comercializem borboletas. Elas executam um
serviço ponderável de polinização, além de deslumbrarem
a vista da gente com suas ricas roupagens coloridas, em
voo tonto".
O pessoal do Grajaú está certo. Vejo
representado nas borboletas um interesse global da vida,
que se tece de infindáveis articulações entre elementos da
natureza, ligando a existência do homem a um quadro
onde tudo tem sua função e, portanto, sua explicação. O
fato de a borboleta encerrar beleza já seria bastante para
justificá-la a nossos olhos. Quem vê um preponamenander
(a qualificação científica não é pedante, foi-me oferecida
pelo livro onde a estampa acende um verde luminoso
sobre o negro, e eu ignoro o nome vulgar), quem vê um
ser desses bailando no espaço, há de sentir melhor a
graça do dia e mais leve o peso da inflação. E já não falo
na Urania leilus, uma senhora sofisticadíssima borboleta,
de tons requintados. E em dezenas de outras, admiráveis.
Com toda beleza, esta é contingente, e não
adianta querer perenizá-la em forma estática, nos cruéis
arranjos decorativos imaginados pelo homem visando a
fins de lucro. Os objetos que utilizam asas de borboleta
são horrendos, por mais que se pretenda convencer aos
turistas do contrário.
Já a atividade prefixada da borboleta em proveito
do equilíbrio ecológico, esta é uma noção fácil de
transmitir aos meninos, na escola de primeiro grau, em
vez de tolerar que eles se transformem em pequenos e,
amanhã, grandes caçadores, por prazer ou negócio.
A vigília do Grajaú não tinha intenção de somente
defender borboletas. Pensou também nas aves e vegetais
de toda sorte, que, mesmo localizados no Parque Nacional da Tijuca, sofrem a ameaça geral contra a natureza, que é
uma das características da vida de hoje. Mas a
particularização em benefício das borboletas dá à gente a
segurança de que a consciência ecológica vai-se
acentuando e distribuindo entre nós de maneira
confortadora. O tema pequeno alia-se ao grande. Por
outra, não há temas pequenos, em se tratando do meio
natural. Uma folha de erva rasteira resume o universo.
Meu Deus, fiz uma frase de efeito, e não sou
sequer vereador com direito de fazê-las. A borboleta que
me visitou não gostaria disso. Caso falasse nossa
linguagem, diria coisas simples, graciosas, sem afetação.
aquela era tão simples, tão sem azuis, vermelhos e
verdes para exibir. Certamente não lerá estas linhas
mais certamente ainda não existirá mais, à hora em que o
jornal estiver circulando. Faz mal não. Ela deu o
seu recado, eu dei o meu. Borboleta, rosa e jornal vivem
horas curtas, mas renascem e documentam
permanência da vida. Outra frase? Bem, desculpem, e já
vou eu, na próxima, borboleteando entre assuntos vários,
neste oficio de juntar sílabas sobre o cotidiano, que é meu
velho ofício. Amiga borboleta, obrigado pela visita. Volte,
sem compromisso.
ANDRADE, Carlos Drummond de. O gato solteiro e outros
bichos. Rio de Janeiro: Record, 2022.