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4037348 Ano: 2026
Disciplina: Português
Banca: FUNDATEC
Orgão: Pref. Jaguari-RS

O lixo não começa na lixeira

Por Jaques Paes

“Faça sua parte”. A frase, repetida à exaustão em campanhas ambientais, virou mantra

cívico do nosso tempo. O apelo ..... consciência do consumidor está por toda parte: no rótulo

reciclável, na embalagem “amiga do planeta”, no selo verde que defende a ideia de

sustentabilidade do produto. É sedutor dizer que cada escolha de consumo conta. Mas essa

lógica, que parece empoderadora, é também conveniente. Desloca o foco da responsabilidade

para o fim da cadeia e transforma um problema sistêmico em questão de comportamento

individual.

Estímulos, excesso de oferta, infraestrutura precária e práticas padronizadas de mercado

são fatores estruturais. Ainda assim, a cobrança recai sobre o consumidor – como se ele tivesse

liberdade plena de escolha ou controle sobre o ciclo do produto. Boa parte do lixo que geramos

já nasce com data marcada para o descarte. Foi pensado assim, produzido assim, vendido assim.

Nas palavras de Jean Baudrillard, não compramos o objeto em si, mas sua representação – um

valor simbólico. No “produto sustentável”, compramos ..... ideia de fazer a coisa certa. Essa

lógica simbólica caminha junto a um dilema ético. Num mundo onde a cidadania se expressa

pelo consumo, a responsabilidade torna-se acessível para quem pode pagar – e inalcançável para

quem não pode. Quando vira atributo de mercado, a ética deixa de ser crítica e vira vitrine; a

moral, absorvida pela lógica da oferta e da demanda.

A Política Nacional de Economia Circular tenta reverter esse quadro. Prevê incentivos .....

reutilização, selos de sustentabilidade, compras públicas e fóruns com participação social. Mas

isso não enfrenta a pergunta incômoda: quem, de fato, é o responsável pelo lixo que produzimos?

Indivíduos. Essa é a resposta fácil – afinal, somos nós que consumimos, descartamos,

desperdiçamos. Depois vêm as empresas, que projetam produtos de vida útil curta e embalagens

excessivas; os governos, que falham em prover regulação e infraestrutura; e o setor de resíduos,

que opera no limite. Mas tratar o indivíduo como causa isola mal o problema e empobrece a

análise. Seu comportamento não surge no vácuo: é moldado por estímulos, escassez de

alternativas, padrões industriais e ausência de infraestrutura. Responsável? Sim. Mas não

sozinho. Culpado? Não exatamente.

Responsabilizar só o consumidor pressiona quem compra, mas poupa quem projeta.

Separar o lixo em casa é nobre. Levar tudo no mesmo caminhão ao mesmo lixão, nem tanto. O

lixo não começa na lixeira. Reduzir, reutilizar e reciclar seguem válidos – mas exigem um passo

anterior: recusar. Recusar a lógica que nos transforma em clientes de um problema que não

criamos.

Levantamentos recentes mostram que a maior parte dos resíduos vem da indústria –

insumos, processos, embalagens. O design, com obsolescência programada, materiais não

recicláveis e excesso de volume, amplia o problema. E a ausência de políticas públicas sólidas

apenas o reforça. Talvez a pergunta que nos reste não seja “o que você tem feito pelo planeta?”,

mas: — Por que colocaram justamente você para consertar isso?

(Disponível em: https://oglobo.globo.com/opiniao/artigos/coluna/2025/10/o-lixo-nao-comeca-na-lixeira.ghtml texto adaptado especialmente para esta prova).

Analise os períodos a seguir, retirados do texto:

1. “Faça sua parte”. A frase, repetida à exaustão em campanhas ambientais, virou mantra cívico do nosso tempo.
2. É sedutor dizer que cada escolha de consumo conta.
3. Essa lógica simbólica caminha junto a um dilema ético.

Em relação aos verbos sublinhados, assinale a alternativa INCORRETA.

 

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