Novo modelo clínico propõe cinco etapas para a prevenção do suicídio
Com base na psicoterapia existencial e em pesquisas empíricas recentes, método foca em fazer o paciente redescobrir o sentido e
o propósito
Jean Silya
10/09/2025
Interessado, desde o início da pós-graduação, no tema-tabu do suicídio, o psicólogo Élison Santos propôs um novo modelo clínico
de cinco etapas para a prevenção. Em seu doutorado em Psicologia Clínica, no Instituto de Psicologia (IP) da USP, Santos
modelou uma estratégia integrada de princípios contemporâneos baseados em evidências, na psicoterapia existencial, logoterapia
e pesquisas empíricas. Pela complexidade da ideação suicida, esses cinco passos foram elencados em detalhes em artigo publicado
pela revista Journal Contemporary Psychotherapy.
Sem hierarquias entre as etapas, ele apresenta como primeiro passo a recepção diferenciada; em seguida, a conexão dos
indivíduos com seus valores fundamentais e responsabilidades; depois, a expansão das perspectivas e possibilidades. Os últimos
dois passos consistem em navegar por tensões existenciais, encorajando a ambivalência da vida, e auxiliar na redescoberta do
propósito e agência.
Para o psicólogo, não há uma etapa mais importante que outra: "Precisa de muito cuidado para ajudar [um indivíduo em
ideação suicida] de forma delicada e assertiva, para ele perceber que existe um sentido, ou ajudá-lo a encontrar um", destad
A busca humana por direção como uma força motivacional primária da psicologia existencial é o cerne dessa formulação.
Conforme o autor, integrar conceitos e abordagens diferentes permite compreender não apenas as preocupações imediatas com a
segurança, mas também o sofrimento existencial subjacente que contribui para os pensamentos suicidas. "O objetivo é propor
um framework que possa ser utilizado por terapeutas de qualquer abordagem para lidar com a ideação suicida. Busca-se
entender o fenômeno da ideação suicida e desenvolver um modelo para diferentes contextos", afirma Santos.
Da conexão humana à redescoberta
Na primeira etapa, de recepção diferenciada, o pesquisador ressalta a importância de fornecer conexão humana que reafirme a
dignidade e o valor do paciente, devido ao profundo isolamento social, autopercepção como fardo e pertencimento frustrado -
conforme alguns modelos teóricos do suicídio. A terapêutica é caracterizada pelo entendimento e validação para conter esses
sentimentos, promovendo segurança, pertencimento e a sensação de ser verdadeiramente enxergado. "Esse é um passo comum
para todas as terapias, a questão da acolhida", indica o pesquisador.
Em seguida, entram os valores e responsabilidades. Para isso, o terapeuta precisa guiar a pessoa paciente a identificar ou se
reconectar a valores pessoais, sentidos de vida e seu senso de responsabilidade. Conforme Santos, a ideação suicida pode ser
entendida, em parte, como um desvio decorrente de uma desconexão com esse senso interno de propósito. "É abrir um pouco
essa ideia. Por exemplo, ajudar a pessoa a perceber que ela se importa com as pessoas pode despertar o senso de
responsabilidade", continua.
Então, no terceiro e no quarto passo, busca-se expandir perspectivas e possibilidades, e navegar por tensões existenciais
encorajando a ambivalência da vida. Estes são passos posteriores, mas mantêm-se importantes. "Se a ideação suicida tem a ver
com um beco sem saída, então eu preciso falar: 'Olha, está vendo essa esquina, você entrou nesse beco sem saída, mas se der uns
três passos atrás vai ver que existe um monte de outros caminhos aqui' ", explica sobre a expansão de horizontes do passo três. Já
no passo quatro, ele ressalta a importância dessas pessoas "entenderem que a tensão que temos na vida faz parte dessa
ambivalência comum a todos, e ajudar o paciente a se conectar com essas capacidades que temos de lidar com ela".
"Se a ideação suicida tem a ver com um beco sem saída, então eu preciso falar: 'Olha, tá vendo essa esquina, você entrou nesse
beco sem saída, mas se der uns três passos atrás vai ver que tem um monte de outros caminhos aqui'"
Por último, na etapa final, de redescoberta do propósito e agência, a proposta é orientar essas pessoas a reconhecerem sua dor, de
sentimentos de derrota e aprisionamento, ou falta de conquistas percebidas, direcionando-as a observá-los como percepções
distorcidas da realidade. Para isso, os terapeutas auxiliam o paciente a acessar forças internas e a relembrar valores e objetivos
mantidos antes da crise. A implementação bem-sucedida exige que os psicólogos clínicos desenvolvam competências em trabalho
existencial centrado no direcionamento, com sensibilidade à diversidade de sistemas de crenças que possam ser apresentados.
Futuro da pesquisa
Essa modelagem preocupada mutuamente com a segurança e o sofrimento existencial precisa ainda ser consolidada por mais
pesquisas. São necessários testes empíricos por meio de ensaios clínicos randomizados em larga escala para estabelecer sua
eficácia e qualquer intervenção deve ser adaptada às necessidades individuais. Ainda assim, as contribuições da teoria de Análise
Existencial de Viktor Frankl e a logoterapia dessa, que destaca a "vontade de sentido" como a motivação fundamental,
permitiram ao estudo destacar a capacidade humana de superar situações extremas, mesmo diante de limitações sociais e
sofrimento.
Em meio a um cenário global de extremismos, desigualdades e ansiedade climática, sentimentos que assolam os jovens com medo
das mudanças climáticas, o suicídio ganha outras faces como sintoma dos problemas da sociedade. Ainda assim, apesar de o
professor reconhecer que as psicoterapias podem não ter um alcance social massivo, elas podem ser capazes de "ajudar uma
pessoa, o que pode curar simbolicamente a sociedade", afirma. "Às vezes, basta alguém mostrar interesse e preocupação para
mudar o destino de uma pessoa. A área da saúde mental é complexa, e a combinação de estudos humanizadores e evidências
científicas [na psicologia] pode ser produtiva", conclui o professor.