Leia o texto a seguir para responder à questão.
Vale a pena enfiar algo goela abaixo do
educando?
Uma amiga tem ideias curiosas sobre as
escolas. Vivendo numa cidade do interior, viu-se
diante da encruzilhada: “qual a melhor escola
para o meu filho?”. Pôs-se a campo visitando as
escolas tidas como as melhores, para conversar
com os diretores. A cena se repetia. O diretor ou
diretora se encantava com a perspectiva de uma
matrícula a mais. Fazia seus melhores esforços
para convencer a mãe. Mostrava as salas, os
laboratórios, as quadras de esportes. Terminada a
excursão, de volta à sala da diretoria, minha
amiga tinha duas perguntas a fazer.
“O senhor sabe, nosso mundo é
competitivo, há o vestibular no horizonte, o
mercado de trabalho. Gostaria de saber como sua
escola lida com esses problemas...” O diretor,
seguro de sua filosofia de educação, respondia:
“Essa é nossa grande preocupação.
Precisamos preparar as crianças para o futuro.
Nossos professores são orientados no sentido de
apertar as crianças ao máximo para que sejam
vencedoras. Quanto a isso a senhora pode estar
tranquila”. Aí ela continuava:
“Sua resposta me esclareceu muito. Mas
há uma última pergunta que quero fazer. As
crianças passam apenas um período na escola.
No outro período elas ficam com o tempo livre.
O que fazer com esse tempo?”
Respondia o diretor: “A resposta a essa
pergunta já está implícita no que eu disse. Não
permitimos que as crianças tenham esse
tempo ocioso. Damos lições para casa de forma
que não sobra tempo ocioso. Elas têm de
trabalhar o dia inteiro”.
Aí a minha amiga concluía:
“Sabe, senhor diretor, acho que a infância
é um tempo tão bonito que é triste apertar as
crianças em nome de um futuro hipotético. As
crianças não podem viver hoje em função do
amanhã. A vida delas é no hoje. Se elas forem
‘apertadas’, vão acabar por odiar a escola e o
aprender. Além do que, as crianças devem ter um
tempo livre para viver suas próprias fantasias,
para brincar. Se elas tiverem todo o seu tempo
tomado por deveres de casa, perderão a
alegria...”
E com essas palavras despedia-se do
diretor perplexo. (...)
ALVES, Rubem. Vale a pena enfiar algo goela abaixo do educando? Revista Educação. Disponível em <https://revistaeducacao.com.br/2025/10/15/rubem-alvescronica/>.