Magna Concursos
4041528 Ano: 2026
Disciplina: Português
Banca: Avança SP
Orgão: Pref. Aparecida-SP
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Diário de um celular
        Vou pedir um tempo ao meu dono. Sinto que ele fica mais tempo comigo do que com a família. Às vezes me sinto sufocado.
         Agora mesmo, tarde da noite, embora já de pijama, ele não desgruda. Acho que é o tal do toque. Se continuar assim, logo terá aquela doença de LER (lesão por esforço repetitivo).
       Seis da manhã. Ele desperta com a mesma música. Em seguida, com mais um toque, ele me apaga de novo.
        Seguimos com o café. Lá estou eu, em posição privilegiada. Ele me coloca na mesa, antes mesmo que a xícara e o pão. Sinto-me importante. Quase um rei.
           No elevador, sou a verdadeira proteção e salvação dos tímidos. Já entra comigo na mão. Às vezes disfarça que está navegando.
            Momento de pânico. Vou partilhar alguns minutos no carro, a caminho da escola do filho e do trabalho. Eles com cinto de segurança, eu totalmente desprotegido, solto no console do veículo. O filho também tem celular, mas, como não liga o “bluetooth”, não partilho as novidades. Ficamos somente no visual (off line). (...)
       Outro dia compreendi melhor qual poderá ser meu destino. Meu dono resolveu finalmente descartar uma impressora antiga, daquelas matriciais. Fomos então a um descarte de lixos eletrônicos. Que imagem triste! Quantos celulares desconectados do mundo. Quanta sucata. Senti uma lágrima no meu visor. Ele estava realmente emocionado com seu descarte. Percebi que ali, naquela aparente bobina da máquina fria, já tinha rolado muito calor humano. Aquele simples aparelho já tinha impresso muito sentimento e história.
        Voltamos para casa abalados, ainda com a imagem daquele cenário de modelos ultrapassados e abandonados. Acessei o Google e constatei que todos têm direito a um último desejo. Naveguei pelo Youtube e encontrei uma música do Toquinho e Vinícius: O Caderno. Na última estrofe da canção, senti meu “chip” mais apertadinho e decidi qual será meu último pedido: “Só peço a você um favor, se puder, não me esqueça num canto qualquer”. 
PASINI, Amarildo. Diário de um celular.
Disponível em <https://www.folhadelondrina.com.br/folha2/cronica---diario-de-um-celular948301.html?d=1>.
“Lá estou eu, em posição privilegiada.”
A palavra destacada no trecho acima é sinônima de:
 

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