Uma carta escrita em papel de seda, abandonada tal qual
o corpo violentado da mulher, ao lado de um não desejado
homem adormecido depois do gozo, jazia sobre a mesa.
Em letras desenhadas com esmero, podia-se ler a repetida
frase: “Eu te amo, eu te amo”. Fio Jasmim pousou sobre
a folha, que, balançada ao vento, um descuidado olhar,
já sabia de cor todo o conteúdo. Tina lhe escrevia quase
sempre. Ele tinha inúmeras cartas dela e não sabia mais
o que fazer com tantas folhas. Muito menos, com o amor
da moça. Devolver as cartas, podia; mas, sem elas, como
convencer a sua mulher que ele, primeiramente, havia sido
vítima de assédio sexual e, com o tempo, do amor louco
da moça? Não, ele não era culpado. A moça sabia que
ele era casado e, mesmo assim, se oferecia. Lá estavam
as palavras dela, escritas por ela, assinadas por ela. Tina
Maria Perpétua.
EVARISTO, Conceição. Canção para ninar menino grande. São Paulo:
Editora Unipalmares, 2018. p. 22 (com adaptações).
Os romances e seus personagens são ricos materiais de estudos e análises sociológicas. Quanto à relação entre o texto de Conceição Evaristo e os conceitos de gênero e violência como motivador inicial, julgue o item seguinte.
A experiência da personagem Tina é de extrema vulnerabilidade afetiva, assim percebida pelo amante como útil, mas exageradamente emocionada, porque ela entende-se enamorada, a ponto de revelar o seu amor por Fio Jasmim, mesmo sabendo do compromisso social e afetivo com a esposa oficial.