Sumiram? Por que pássaros coloridos estão desaparecendo das cidades?
Avistar pássaros coloridos nas cidades brasileiras
tem se tornado cada vez mais raro. O fenômeno não é
coincidência, mas resultado de uma série de fatores
ecológicos e urbanos que dificultam a sobrevivência
dessas espécies em ambiente urbano.
"Espécies coloridas, como a saíra-sete-cores, a
saíra-ferrugem e a saíra-militar, tendem a ser pequenas e
a apresentar uma dieta especializada, baseada
principalmente em frutos carnosos pequenos alimentos
que dependem da presença de árvores específicas, cada
vez mais escassas nas cidades", diz Lucas do
Nascimento, biólogo e pesquisador do Departamento de
Genética e Biologia Evolutiva do Instituto de Biociências
da USP (Universidade de São Paulo), que produziu um
estudo sobre o tema.
Em contrapartida, aves que ainda prosperam nas
cidades, como pombos, são maiores e onívoras, com uma
dieta mais flexível. "Elas conseguem explorar diferentes
recursos, como insetos, grãos, restos de comida
descartados por humanos, ração de animais domésticos e
até alimentos encontrado em lixeiras", explica Nascimento.
O tráfico ilegal de pássaros também é um fator
preocupante. A beleza dessas aves, que deveria ser
motivo de contemplação, acaba tornando-as alvo de
exploração.
Outro desafio é o abrigo. Aves coloridas
costumam depender de áreas florestais densas para se
protegerem.
"Elas se destacam mais em ambientes urbanos.
Assim, aumentam o risco de predação e reduzem a
chance de sucesso na alimentação", explica Gabriel de
Paula, biólogo e pesquisador do Departamento de
Genética, Ecologia e Evolução da UFMG (Universidade
Federal de Minas Gerais)."Já as aves de coloração neutra,
como pardais e pombas, camuflam-se com mais facilidade
em cenários dominados por concreto e asfalto", compara o
pesquisador.
A forma como as cidades são desenhadas
também tem impacto direto no desaparecimento dos
pássaros coloridos. Quando o planejamento urbano ignora
a presença de árvores que produzem frutos carnosos,
cria-se um ambiente hostil.
"Cidades arborizadas, com praças, parques e
presença de espécies nativas, oferecem alimento, abrigo e
conectividade ecológica, o que permite maior diversidade
de aves. incluindo as mais coloridas", diz Gabriel de Paula.
O uso excessivo de vidro espelhados nas
construções também representa uma ameaça. Ao não
reconhecerem o vidro como barreira, as aves acabam se
chocando contra fachadas espelhadas, muitas vezes com
consequências fatais.
Outro elemento urbano que afeta diretamente
essas espécies são as ilhas de calor. Uma pesquisa
chinesa publicada em 2023 mostrou que o fenômeno está
relacionado ao aumento do estresse oxidativo, que
impacta negativamente a saúde das aves.
"Considerando que as espécies coloridas já são
mais sensíveis por diversos fatores, é plausível supor que
elas também sejam particularmente vulneráveis ao estresse causado pelo aumento da temperatura", aponta
Lucas Nascimento.
Por outro lado, um estudo recente de
pesquisadores chilenos com pombos domésticos sugeriu
que indivíduos com menor diversidade de cores tendem a
ser mais resistentes ao estresse oxidativo causado pelas
ilhas de calor.
Reverter o desaparecimento dos pássaros
coloridos exige mais do que boas intenções. Lucas aponta
que é preciso uma transformação profunda na forma como
as cidades são pensadas.
"Hoje as cidades são planejadas quase
exclusivamente para atender às necessidades da espécie
humana e isso precisa mudar radicalmente se quisermos
preservar também as demais formas de vida e,
consequentemente, a nossa", afirma o pesquisador da
USP.
Um levantamento recente do IBGE mostra que
34% da população brasileira vive em vias sem nenhuma
árvore.
"É essencial aumentar e qualificar as áreas
verdes, com foco no plantio de espécies nativas que
produzem frutos carnosos pequenos e flores com néctar",
ressalta Nascimento.
Adriana Sandre, professora da FAU-USP
(Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e Design da
Universidade de São Paulo) ressalta a importância da
diversidade de vegetação no ambiente urbano. "É preciso
compor sistemas com plantas que oferecem alimento,
sombra, abrigo e locais de nidificação em diferentes
escalas a diferentes espécies".
Já Maria Fernanda Del Giovannino, graduanda em
arquitetura e urbanismo que desenvolve uma pesquisa
sobre as aves no ambiente urbano, junto com Sandre,
destaca que diversos elementos arquitetônicos, como
caixas de ninho, telhados verdes, fachadas verdes,
corredores ecológicos e lagos urbanos, podem ajudar os
pássaros coloridos a voltarem para as cidades.
"Muitas vezes caímos na percepção de que, se
uma iniciativa isolada não resolve o problema em larga
escala, não vale a pena implementá-la. Mas pequenos
elementos no ambiente urbano podem ter grande
relevância ecológica", diz Giovannino. "Por exemplo,
bebedouros, caixas-ninho ou mesmo uma única árvore
podem oferecer recursos fundamentais para diversas
espécies, seja fornecendo água, abrigo ou alimento",
explica.
No mundo, países têm avançado em aplicar a
arquitetura 'birdfriendly' (em português, amiga dos
pássaros). Em Nova lorque (EUA), uma lei de 2019, exige
que todas as novas edificações acima de 23 metros de
altura usem vidros espelhados mais seguros para aves -
vidros que possuem marcadores visuais em toda a
superfície para atenuar ou distorcer os reflexos dos
elementos ao redor.
No Brasil, o Projeto de Lei nº 228/2025 que tramita
na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo,
determina que todos os municípios do estado, por meio de
projetos e politicas públicas específicas, obriguem a
aplicação de dispositivos que evitem a colisão de aves
contra os vidros em edificações de qualquer tipo.
Disponível em:<https://www.uol.com.br/ecoa/ultimasnoticias/2025/09/11/sumiram-por-que-passaros-coloridos-estaodesaparecendo-das-cidades.htm>Acesso em: 14 de setembro de 2025.
Contextualmente, a palavra destacada no trecho acima tem como sinônimo: