TEXTO 1
Discursos e práticas científicas, como produções inseridas em uma cultura, participam dos processos de alterização. Esse conceito
faz referência aos processos culturais de delimitação das formas possíveis da construção do eu e do outro em um determinado
marco sócio-histórico. Ele é utilizado para definir o padrão de normalidade em cada sociedade. Com base nesse padrão, geram-se
hierarquizações entre grupamentos humanos, a partir da configuração de escalas de superioridade e inferioridade — de
segregação e marginalização das pessoas consideradas anormais e inferiores. Esse fato aconteceu com Henrietta Lacks (1920
1951), que, aos 30 anos de vida, foi diagnosticada com carcinoma epidermoide do colo do útero. Submetida aos procedimentos
de tratamento da doença, Lacks, mulher negra e pobre vivendo em plena vigência das leis de segregação racial nos Estados
Unidos, teve amostras de suas células coletadas e armazenadas sem seu consentimento. Desde a década de 1920, pesquisadores
analisavam amostras de tecidos de pessoas enfermas a fim de usá-las para investigar a causa e a cura do câncer. Até a amostra de
Henrietta Lacks, todas as células recolhidas com esse propósito, após um tempo em cultura, morriam. No caso das células
de Henrietta, elas não morreram. Como o pesquisador em questão codificava as células usando as duas primeiras letras do
primeiro e último nome de cada paciente, as células de Henrietta Lacks — e a própria Henrietta — foram nomeadas de “HeLa”.
PAIVA, A. S.; SILVA, E. P. Q. Mulher, raça, ciência e livro didático: leitura feminista interseccional do caso
de Henrietta Lacks. Cadernos de Gênero e Tecnologia, n. 47, 2023 (adaptado).
TEXTO 2
A luta entre a boxeadora da Argélia Imane Khelif e a italiana Angela Carini, ambas categoria até 66 quilos, nas olimpíadas de
Paris (2024), durou só 46 segundos e terminou com a vitória da argelina. A repercussão da prova, porém, ficou em cima de
um outro acontecimento. Em 2023 a Associação Internacional de Boxe desclassificou Khelif de um campeonato por ela não ter
passado no teste de gênero realizado pela organização. Isso aconteceu porque os níveis de testosterona da atleta não cumpriram
critérios de elegibilidade da associação. Segundo a pesquisadora consultada pela reportagem, essa verificação pode ser imprecisa
e acabar ficando específica para atletas que teriam uma aparência, entendida socialmente, como masculinizada, em especial
pelos dirigentes de entidades esportivas.
Disponível em: www.nexojornal.com.br. Acesso em: 22 maio 2025 (adaptado).