O trocador olhou, viu, não aprovou. Daquele passageiro,
escanchado placidamente no banco lateral, escorria um fio
de água que ia compondo, no piso do ônibus, a microfigura
de uma piscina.
– Ei, moço, quer fazer o favor de levantar?
O moço (pois ostentava barba e cabeleira amazônica,
sinais indiscutíveis de mocidade) nem-te-ligo.
O trocador esfregou as mãos no rosto, em gesto de enfado e desânimo, diante da situação tantas vezes enfrentada,
e murmurou:
– Esses caras são de morte.
Devia estar pensando: Todo ano a mesma coisa. Chegando o verão, chegam problemas. Bem disse o Dario, quando fazia gol no Atlético Mineiro: Problemática demais. Estava
cansado de advertir passageiros que não aprendem como
viajar em coletivo. Não aprendem e não querem aprender.
Tendo comprado passagem por 65 centavos, acham que
compraram o ônibus e podem fazer dele casa da peste.
(Carlos Drummond de Andrade, “Recalcitrante”.
Em: As palavras que ninguém diz, 2011. Adaptado)