Para responder às questões 01 a 10, leia o texto abaixo.
Viajar é fuga, sim
1 Jamais viajei sem carregar a sensação de estar
2 causando perturbação à vida de alguém que ficou.
3 Quase sempre, minha mãe. Eu tinha 24 anos quando
4 resolvi conhecer a Europa. Minha primeira viagem para
5 outro continente, levando mil dólares em dinheiro,
6 nomes de amigos de amigos anotados num papel e um
7 passaporte estalando de novo.
8 Seriam dois meses sem roteiro definido. Não era
9 uma viagem à Lua, nem mesmo uma mudança
10 definitiva, mas soube que, depois que eu cruzei o
11 portão de embarque do aeroporto, minha mãe teve que
12 ser amparada, mal conseguiu caminhar de volta para
13 o carro. Sua garota havia sido convocada para a
14 guerra.
15 A família preferia que eu estivesse preparando o
16 enxoval, mas eu tinha férias vencidas e férias a vencer,
17 e negociei com meu chefe a junção desses dois
18 períodos. Ele, camarada, garantiu que manteria meu
19 emprego na volta. Então lá fui eu, deixando aquele
20 rastro de tragédia atrás de mim.
21 Viajar é fuga, sim. Fuga de uma rotina cuja
22 repetição faz parecer que envelhecemos sem sair do
23 lugar. Fuga de nossas reações automáticas diante dos
24 desconfortos da alma. Fuga dos passos previsíveis até
25 chegar à morte. Fuga do relógio, do supermercado,
26 dos sapatos de salto, das aulas de ginástica, dos
27 parentes, das 24 horas supersônicas de cada dia, bom
28 dia e boa noite alternando-se a uma distância de
29 minutos.
30 Ruas estrangeiras erguem minha cabeça, eu que
31 no dia a dia caminho olhando para o chão, temendo
32 fissuras na calçada. Ao viajar, contemplo obras de
33 Monet em plena tarde de quinta-feira. Dou um
34 mergulho não planejado no mar. Fico bonita usando
35 um vestido de uma cor que achei que não combinava
36 comigo. Descubro que sou simpática com estranhos.
37 Não sinto fome ao meio-dia. Atravesso avenidas como
38 se elas fossem portais, todos os caminhos levam a um
39 lugar que nunca fui, e a coragem confirma que é a
40 minha melhor parceira. Estou tão dentro de mim que
41 não estou ao alcance de ninguém.
42 Não que desgoste de estar com as pessoas.
43 Conviver é uma aventura; conversar, uma façanha.
44 Mas estar a sós é um prazer quase lisérgico. Sei que
45 uma solidão permanente e indesejada desvirtuaria
46 esse meu discurso e colocaria em pauta um drama que
47 desconheço, mas é boa a sensação de que minha
48 existência não necessita ser confirmada pelos outros
49 de hora em hora. Eu tenho certeza de que existo muito,
50 e existo bem.
51 Voltar é a confirmação de que os outros importam
52 e de que sou capaz de abdicar de mim para me
53 acomodar a um comportamento padrão. Voltar é
54 sempre uma declaração de amor. Partir e de costas,
55 voltar e de frente, como escreveu Caio Fernando
56 Abreu Tenho lido muito neste verão, enquanto
57 economizo para mais uma fuga malsucedida. Não
58 adianta, eu sempre volto.
Autora: Martha Medeiros (adaptado)
Em Estou tão dentro de mim que não estou ao alcance de ninguém (l.40-41), a autora expressa: