O SANTO GRAAL DE QUEM SE BASTA
Nunca fui ao cinema só comigo. Isso me leva à elaboração de uma teoria: as pessoas mais bem resolvidas são aquelas que
se bastam. Essas criaturas independentes viajam sozinhas para qualquer destino, longe ou perto, sem ninguém para compartilhar
as impressões sobre os lugares visitados. Não esperam companhia para assistir a um filme nem para experimentar algo novo no
menu do restaurante — o preferido ou o recém-inaugurado.
Confesso certa inveja desses seres felizes, livres por natureza, capazes de se reinventar quantas vezes desejarem. Eles
apenas se permitem, não precisam caminhar de braço dado, não pedem licença para viver. Falam o que pensam, fazem o que
decidem, exercem os seus direitos de escolha com total convicção. Admiro esse modo de existir, eu, que, na ausência de interlocutores, faço comentários em voz alta. E rotineiramente me salvo de tais circunstâncias ao recorrer à escrita, em que anoto as minhas
conversas internas sem temer causar estranheza, caso me ouçam.
Ocorre-me agora uma outra característica dessa gente singular: não se importar com a opinião alheia. E, ao contrário
do que você possa imaginar, são personalidades fraternas, solidárias, amigos maravilhosos, solícitos, gentis. Preocupam-se com
quem convivem, são empáticos com os desconhecidos. Espero que haja muitos deles espalhados pelo mundo e que, ao longo da
leitura desta crônica, a descrição tenha correspondido à realidade de maneira a arrancar um “tenho uma colega assim” ou “esse é
exatamente o meu irmão”.
Talvez no futuro venhamos a descobrir o segredo tão bem guardado por eles, tesouro mais valioso do que o Santo Graal,
fonte da juventude eterna. Talvez um dia sejamos todos nós imunes à solidão.
Marília Lovatel, OP+. Colunistas. Publicado 18:00 | 29 de Mar de 2025.
Assim como a palavra menu, os galicismos são estrangeirismos provenientes da língua francesa, sendo aceitos e usados, hoje, frequentemente, em diversos contextos discursivos. Logo, analogamente à palavra menu, há um galicismo ressaltado em