Leia o texto, para responder às questões de números 08 a 10.
Iaiá ou o rio
As canções de Iaiá eram como o murmúrio distante do rio que margeava os limites do Engenho. Como água cristalina, doce, mansa, que vinha de algum lugar escondido na floresta, murmurante, passava sob as sombras das árvores e as asas voláteis das pequeninas libélulas e das borboletas.
E assim era também Iaiá. Toda paz e ternura.
Cantava, enquanto carregava os recém-nascidos do Abrigo do Engenho e os embalava, suave e amorosamente, como se carregasse um presente único.
Era uma das escravas mais antigas. Encurvada, de pele murcha. Seu cabelo não tinha mais cor; e seu rosto, redondo e calmo, era negríssimo, emoldurado por fartas e grisalhas sobrancelhas. Com os dentes desgastados, ela sempre sorria, mas observando bem de perto seus olhos, eles pareciam nublados, meio azuis, como um aguaceiro no mar ou um pranto.
Iaiá era linda e velha como o mundo. Quase todos na senzala passaram por seus braços fartos e calorosos. Quase todos ouviram seus cantos murmurantes, sem palavras. Suas melodias de quietude e sonhos. Quase todos viam nela a mãe, a avó, a irmã que perderam.
Ela era a família perdida, morta ou vendida no Mercado de escravos. Era um pedaço de todos.
(Teresa Cárdenas, Awon Baba)
A alternativa que contém passagem caracterizada pelo emprego de palavra(s) em sentido figurado é: