Motoristas porto-alegrenses
Por Fabrício Carpinejar
Será que o pisca foi suspenso em Porto Alegre?
Será que não estou ciente de alguma alteração no código de trânsito gaudério?
Você está dirigindo de boa, e de repente os veículos vizinhos vão mudando de pista sem
avisar, num zigue-zague frenético e intempestivo. Passam da esquerda para a direita, da
direita para a esquerda, como se não estivessem acompanhados, como se a cidade se
mostrasse deserta, antecipando .... solidão das madrugadas nos horários de pico.
Entram numa garagem ou numa rua sem nenhuma advertência, do nada, numa
existência viária vazia de sentido.
Parece que todos os motoristas porto-alegrenses decidem de última hora, ou estão
perdidos, ou não sabem bem o que fazer nem ________ ir.
Adivinhar as manobras alheias surpreendentes não requer uma direção defensiva, mas
blindada.
Você não desgruda um segundo do retrovisor. Pilota mais olhando para o retrovisor do
que para frente. As laterais formam seu vidro dianteiro.
Tem que ser médium, para não bater ou colidir com os desatinos imprevidentes.
Não é que o pisca é acionado depois do movimento executado, ele sequer é concedido,
numa travessia .... cegas.
.... vezes, penso que ingressei em uma autopista de fantasmas. Os ectoplasmas surgem e
desaparecem, e é você que está delirando e en__ergando vultos.
Para sair de casa, é exigida uma coragem sobrenatural.
Será preguiça de dar a seta? Eu dou seta até na garagem. Até no momento de estacionar
na minha vaga. Por hábito. Pela força do hábito. Assim como o cinto, que somente desafivelo
ao desembarcar.
O pisca é localizado perto do volante para ninguém ter trabalho ao utilizá-lo. Trata-se do
antídoto da buzina. Dificilmente contará com a urgência de buzinar se todos ligarem o
tradicional sinal luminoso. O sinal sonoro só é necessário em derradeiro caso, pela ausência do
sinal luminoso.
Estamos consolidando uma nova cultura de desorientação. Os motoristas dirigem como se
fossem pedestres. Como se estivessem caminhando. Alternam o lado impunemente, e
contornam os obstáculos do mesmo modo que realizariam uma andança nas calçadas pelo
bairro.
A crença é que estão a pé, donos de seus passos, e não conduzindo máquinas perigosas e
mortíferas capazes de atropelar e provocar acidentes.
Esquecem que são uma das peças dentro de um conjunto, que qualquer ato ignorado
influencia as demais num tabuleiro complexo de ação-reação.
(Disponível em: gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/carpinejar/noticia/2025/02/parece-que-todos-osmotoristas-porto-alegrenses-nao-sabem-bem-o-que-fazer-cm72dvtfp003a01arz6bw58y5.html – texto adaptado especialmente para esta prova).
“O sinal sonoro só é necessário em derradeiro caso, pela ausência do sinal luminoso” (l. 26-27).