Leia o texto abaixo e responda a questão.
A revolução das mulheres que dizem não
Mariliz Pereira Jorge
Sempre fui a mulher do sim. Não
porque me disseram, não porque esperavam,
mas porque eu quis. Sim para a viagem sem
dinheiro, sim para o trabalho que não tinha
nada a ver comigo, sim para a festa em plena
terça, sim para conversa fiada. O sim, durante
anos, foi meu combustível. E que delícia foi. Eu
me joguei em situações improváveis, conheci
gente que jamais cruzaria meu caminho e
acumulei histórias que hoje cabem na pasta
«sorrisos» da memória.
Mas o sim tem um custo. Ele começa como
impulso de vida e termina como compulsão.
Um medo infantil de perder a piada, o bonde,
a oportunidade única que era cilada. O sim vira
vício. O sim ocupa espaço. O sim engole.
De repente, dizia sim sem vontade, sim
sem tempo, sim sem energia. Sim para reuniões
que não mudavam nada, sim para almoços
com o mesmo cardápio de comida e de ideias,
sim para favores disfarçados de gentileza, sim
para convites que eu aceitava só para não
ser antipática. O sim virou piloto automático:
responde mensagem, comparece a encontros
que rendem mais bocejo do que alegria, faz
parte de grupos dos quais queria fugir. Um sim
ansioso, medroso, que não queria ficar de fora,
mas me deixava de fora de mim.
Foi aí que o não apareceu, quase sem ser
chamado. Primeiro tímido, engasgado, saindo
como desculpa esfarrapada. Depois mais limpo,
mais curto, quase elegante. O não me libertou
das minhas próprias amarras, da obrigação
autoimposta de ser sempre a disponível, a
interessada, a participante. O não acanhado
abriu espaço para o não sem medo que virou
não sem culpa.
O não tem uma qualidade que o sim
jamais teve: autoridade. Dizer não me deixa
inteira. Não me tira de uma experiência, me
devolve a mim mesma. O não não me isola,
seleciona. É como se eu tivesse descoberto um
superpoder invisível: cortar sem parecer cruel, recusar sem ter que explicar, simplesmente não
ir, não estar, não topar.
E o melhor é que, quando o não entrou na
rotina, o sim mudou de valor. O sim ficou caro,
seletivo, precioso. O sim ganhou brilho porque
deixou de ser moeda de troca barata. Hoje, o
sim é dado só ao que me interessa de verdade,
ao que me move, ao que não me parece
desperdício de vida. Um jantar que sei que vai
render gargalhadas, um projeto que me dá frio
na barriga, uma viagem que me entorpece. O
sim deixou de ser automático e virou escolha.
Posso parecer temperamental e passiva
ao mesmo tempo, desequilibrada e tranquila,
mas não ligo. É justamente a prova de que não
estou mais refém de agradar. Não sou mais a
mulher que diz sim porque tem medo de ser
esquecida ou de perder uma festa que seria igual
a todas as outras. Sou a mulher que aprendeu
a perder sem perder nada, que entendeu que
dizer não é tão vital quanto respirar.
No fim, aprendi que a maior festa é aquela
que acontece quando a gente descobre o luxo
de dizer não. A música toca mais alto, o espaço
fica mais amplo e, principalmente, sobra lugar
para quem realmente vale a pena.
E se isso vale para mim, vale também
para todas nós. Imagine a revolução silenciosa,
mas implacável, que nasce quando as mulheres
param de aceitar o que não lhes cabe: os
convites, as obrigações, as cobranças, os
papéis que nunca escolheram.
Cada “não” dito com clareza é uma porta
que se fecha para o abuso, para a exploração,
para a expectativa alheia. Cada “não” abre
espaço para o respeito próprio, para o desejo
verdadeiro, para uma vida em que o sim não
é compulsão ou obrigação, mas escolha. Uma
mulher que aprende a dizer não muda a sua
vida. Muitas mulheres dizendo não mudam o
mundo.
Fonte: https://www1.folha.uol.com.br
“O sim ganhou brilho porque deixou de ser moeda de troca barata”.