Ler um grande livro é um privilégio. Ler um
livro ruim, porém inesquecível, é um trauma de elite.
E sim — há livros que ultrapassam a barreira do
aceitável e adentram um território misterioso, onde o
constrangimento se mistura ao fascínio. Você
continua virando as páginas não porque está preso à
trama, mas porque quer ver até onde o autor vai. E ele
vai. Vai longe. E, às vezes, leva você junto — amarrado,
confuso e murmurando baixinho: “isso não pode estar
acontecendo”.
Alguns desses livros são escritos por gente
brilhante. Outros, por gente bem-intencionada. Há
neles a tentativa sincera de dizer algo — e é
justamente aí que mora o perigo. Porque, quando a
intenção é maior que o talento, o resultado costuma
ser… memorável. E não da maneira que o autor
esperava.
O curioso é que essas leituras deixam marcas.
Não pela beleza — que, convenhamos, passa longe —
mas pela coragem. Há um tipo de audácia em
escrever frases como se o mundo fosse acabar no
parágrafo seguinte. Um tipo de heroísmo em insistir
numa metáfora esticada até o limite do bom senso. E
um certo tipo de genialidade involuntária em
acreditar que a literatura pode, de fato, salvar o leitor
— mesmo que ele não tenha pedido ajuda.
Claro, há momentos em que você quer jogar
o livro pela janela. Ou usá-lo como apoio para a mesa
bamba. Mas então surge uma imagem, uma frase, um
desvio de lógica tão absurdo que você ri. E segue.
Porque, no fundo, todo leitor tem um pouco de
masoquista. E todo livro ruim — mas honestamente
ruim — carrega o dom secreto de nos lembrar por que
os bons são tão raros. E tão preciosos.
No final, você não recomenda a leitura. Mas
também não esquece. E isso — de certo modo — já é
uma vitória literária.
Internet: https://www.revistabula.com (com adaptações).
O vocábulo “aí” (linha 14) remete a