Cor-de-Rosa
O vizinho mandou pintar de cor-de-rosa sua casa, e de
azul-claro o beiral das janelas. Esta providência dá margem a
algumas divagações que aqui se transmitem ao leitor, nosso
companheiro. O ato do vizinho é muito mais importante do
que lhe parece a ele. Afirma um sentimento de confiança na
civilização mediterrânea, e o propósito de contribuir para que
todos nós, residentes ou transeuntes, recuperemos um pouco da beatitude perdida.
De uns anos para cá as ruas passaram a ser percorridas por elementos suspeitos, que, avaliando em metros quadrados aéreos os terrenos onde se erguem as habitações
humanas, logo procuram seus proprietários e lhes propõem
botar aquilo no chão. A aquiescência imediata dos interpelados revela estranha propensão ao suicídio, praticado através
da destruição de algo fundamental como é a casa em que
vivemos.
Mas o vizinho reagiu contra essa psicose grupal, e dali
sorriem pintadas de rosa as paredes de sua casa. Vale dizer
que ele não atendeu o telefone, quando o chamaram para
consultá-lo vagamente sobre a hipótese da derrubada, que
não compareceu ao escritório onde peritos blandiciosos o
convenceriam da inconveniência de morar à maneira antiga,
metendo em brios o seu amor-próprio, pois se todo mundo
desistiu de tal maneira, por que só ele continua teimando?
Ou compareceu, foi amaciado, reagiu, tornaram a amaciá-lo,
esteve a ponto de ceder, a vista se lhe turvou qual plúmbeo
véu, eram tantos milhões de cruzeiros, mas cobrou ânimo e
reagiu outra vez, o senhor é louco, não vê que a valorização
naquela zona o proíbe de continuar a deter o surto imobiliário,
isso é um crime, o senhor está perdendo dez mil cruzeiros por
semana, onde é que anda o amor que devota a seus filhos,
e o gabarito, e a vaga na garagem, e o fabuloso jardim de
inverno, e o vizinho vai capitular, não, ainda, não; passa-lhe
pela mente o frontispício cor-de-rosa, com elementos azuis,
de uma antiga mansão onde a vida era feliz, ou pelo menos
ficou sendo naquele tempo; depois que considerou bem, o
vizinho enxuga o suor da testa, grita NÃÃÃO, e sai e chama
o pintor e lhe ordena: pinte tudo cor-de-rosa, com os beirais
e as janelas de azul de mês de Maria, quero minha casa
bem bonita, como bonito era o sobradão de 1800 e tantos
onde meu bisavô nasceu, e quero ver, mas quero ver quem
derruba minha casinha!
(Carlos Drummond de Andrade, “Cor-de-Rosa”, Disponível em:
https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/17455/cor-de-rosa. Adaptado)
• “A aquiescência imediata dos interpelados revela estranha propensão ao suicídio, praticado através da destruição de algo fundamental como é a casa em que vivemos.” (2º parágrafo)
É correto afirmar que as palavras destacadas podem ser substituídas, respectivamente e sem prejuízo de sentido original, por:
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