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4035892 Ano: 2026
Disciplina: Português
Banca: Marinha
Orgão: Marinha
Sumiram? Por que pássaros coloridos estão desaparecendo das cidades?


   Avistar pássaros coloridos nas cidades brasileiras tem se tornado cada vez mais raro. O fenômeno não é coincidência, mas resultado de uma série de fatores ecológicos e urbanos que dificultam a sobrevivência dessas espécies em ambiente urbano.

   "Espécies coloridas, como a saíra-sete-cores, a saíra-ferrugem e a saíra-militar, tendem a ser pequenas e a apresentar uma dieta especializada, baseada principalmente em frutos carnosos pequenos alimentos que dependem da presença de árvores específicas, cada vez mais escassas nas cidades", diz Lucas do Nascimento, biólogo e pesquisador do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva do Instituto de Biociências da USP (Universidade de São Paulo), que produziu um estudo sobre o tema. 

    Em contrapartida, aves que ainda prosperam nas cidades, como pombos, são maiores e onívoras, com uma dieta mais flexível. "Elas conseguem explorar diferentes recursos, como insetos, grãos, restos de comida descartados por humanos, ração de animais domésticos e até alimentos encontrado em lixeiras", explica Nascimento.

     O tráfico ilegal de pássaros também é um fator preocupante. A beleza dessas aves, que deveria ser motivo de contemplação, acaba tornando-as alvo de exploração.
    Outro desafio é o abrigo. Aves coloridas costumam depender de áreas florestais densas para se protegerem. 

    "Elas se destacam mais em ambientes urbanos. Assim, aumentam o risco de predação e reduzem a chance de sucesso na alimentação", explica Gabriel de Paula, biólogo e pesquisador do Departamento de Genética, Ecologia e Evolução da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais)."Já as aves de coloração neutra, como pardais e pombas, camuflam-se com mais facilidade em cenários dominados por concreto e asfalto", compara o pesquisador.

    A forma como as cidades são desenhadas também tem impacto direto no desaparecimento dos pássaros coloridos. Quando o planejamento urbano ignora a presença de árvores que produzem frutos carnosos, cria-se um ambiente hostil.

   "Cidades arborizadas, com praças, parques e presença de espécies nativas, oferecem alimento, abrigo e conectividade ecológica, o que permite maior diversidade de aves. incluindo as mais coloridas", diz Gabriel de Paula.

    O uso excessivo de vidro espelhados nas construções também representa uma ameaça. Ao não reconhecerem o vidro como barreira, as aves acabam se chocando contra fachadas espelhadas, muitas vezes com consequências fatais.

    Outro elemento urbano que afeta diretamente essas espécies são as ilhas de calor. Uma pesquisa chinesa publicada em 2023 mostrou que o fenômeno está relacionado ao aumento do estresse oxidativo, que impacta negativamente a saúde das aves.

    "Considerando que as espécies coloridas já são mais sensíveis por diversos fatores, é plausível supor que elas também sejam particularmente vulneráveis ao estresse causado pelo aumento da temperatura", aponta Lucas Nascimento.

    Por outro lado, um estudo recente de pesquisadores chilenos com pombos domésticos sugeriu que indivíduos com menor diversidade de cores tendem a ser mais resistentes ao estresse oxidativo causado pelas ilhas de calor.

    Reverter o desaparecimento dos pássaros coloridos exige mais do que boas intenções. Lucas aponta que é preciso uma transformação profunda na forma como as cidades são pensadas.

    "Hoje as cidades são planejadas quase exclusivamente para atender às necessidades da espécie humana e isso precisa mudar radicalmente se quisermos preservar também as demais formas de vida e, consequentemente, a nossa", afirma o pesquisador da USP.

    Um levantamento recente do IBGE mostra que 34% da população brasileira vive em vias sem nenhuma árvore. 

    "É essencial aumentar e qualificar as áreas verdes, com foco no plantio de espécies nativas que produzem frutos carnosos pequenos e flores com néctar", ressalta Nascimento.

    Adriana Sandre, professora da FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e Design da Universidade de São Paulo) ressalta a importância da diversidade de vegetação no ambiente urbano. "É preciso compor sistemas com plantas que oferecem alimento, sombra, abrigo e locais de nidificação em diferentes escalas a diferentes espécies".

    Já Maria Fernanda Del Giovannino, graduanda em arquitetura e urbanismo que desenvolve uma pesquisa sobre as aves no ambiente urbano, junto com Sandre, destaca que diversos elementos arquitetônicos, como caixas de ninho, telhados verdes, fachadas verdes, corredores ecológicos e lagos urbanos, podem ajudar os pássaros coloridos a voltarem para as cidades.

    "Muitas vezes caímos na percepção de que, se uma iniciativa isolada não resolve o problema em larga escala, não vale a pena implementá-la. Mas pequenos elementos no ambiente urbano podem ter grande relevância ecológica", diz Giovannino. "Por exemplo, bebedouros, caixas-ninho ou mesmo uma única árvore podem oferecer recursos fundamentais para diversas espécies, seja fornecendo água, abrigo ou alimento", explica.

    No mundo, países têm avançado em aplicar a arquitetura 'birdfriendly' (em português, amiga dos pássaros). Em Nova lorque (EUA), uma lei de 2019, exige que todas as novas edificações acima de 23 metros de altura usem vidros espelhados mais seguros para aves - vidros que possuem marcadores visuais em toda a superfície para atenuar ou distorcer os reflexos dos elementos ao redor.

    No Brasil, o Projeto de Lei nº 228/2025 que tramita na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, determina que todos os municípios do estado, por meio de projetos e politicas públicas específicas, obriguem a aplicação de dispositivos que evitem a colisão de aves contra os vidros em edificações de qualquer tipo.


Disponível em:<https://www.uol.com.br/ecoa/ultimasnoticias/2025/09/11/sumiram-por-que-passaros-coloridos-estaodesaparecendo-das-cidades.htm>Acesso em: 14 de setembro de 2025.
Observe o fragmento: "(...) como a saíra-sete-cores, a saíra-ferrugem e a saira-militar, tendem a ser pequenas (...)" 2°§.

Assinale a opção em que o vocábulo está com a grafia correta.
 

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