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795932 Ano: 2013
Disciplina: Português
Banca: FADESP
Orgão: COREN-PA
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TEMPOS MODERNOS

Prazeres na “nuvem”

Por Ruy Castro, em 02/10/2012, na edição 7

CDs, DVDs, câmeras digitais, telefones fixos, controle remoto e até PCs de mesa com

teclado, mouse e disco rígido̶ pelo que li há dias no “Globo”, tudo isso tende a ser história nos

próximos anos. Por história, entenda-se o grande lixão a que se destinam os cadáveres da

eletrônica. Parece que, na próxima década, só os maiores de 30 anos ainda terão uma vaga

lembrança de para que serviam esses equipamentos, aos quais ficamos hoje atracados o dia

inteiro.

A ideia é a de que as mídias físicas, palpáveis, irão literalmente para o espaço. Tudo

estará na chamada “nuvem” ̶ que, até agora, ninguém conseguiu me explicar onde fica, como

funciona e se fecha quando chove. O acesso aos conteúdos se dará por smartphones, downloads

ou com o usuário plantando bananeira contra a parede e se concentrando.

A “nuvem” é infinita e conterá tudo o que puder ser exibido, alugado, vendido,

emprestado ou copiado, e isso dispensará as cidades de manter museus, galerias, cinemas,

bibliotecas, livrarias, sebos, arquivos públicos etc. Quer dizer, os acervos destes continuarão

existindo, mas “na nuvem”, sem despesas com funcionários, material de limpeza ou energia

elétrica.

Cá entre nós, não estou com a menor pressa de aderir à “nuvem”. Ainda gosto de

manusear, apalpar, acariciar. Hoje, por exemplo, minha coleção de LPs, em edições raras,

originais, lindíssimas, é a melhor que já tive (vitrolas e agulhas não faltam̶ estou estocado). O

mesmo quanto às coleções de CDs e DVDs que acumulei̶ só espero que não interrompam logo

a fabricação dos aparelhos para tocá-los. E continuo a frequentar sebos, bibliotecas e arquivos -

gosto até do cheiro de mofo.

Meu consolo é que, um dia, quando tudo isso tiver acabado e só estiver disponível na

“nuvem”, eu também estarei nas proximidades̶ em alguma nuvem

Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed714_prazeres_na_nuvem Acesso em 22 abr. 20

A ideia de que o armazenamento de dados em discos rígidos e em mídias físicas é coisa do passado não está presente em
 

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795931 Ano: 2013
Disciplina: Português
Banca: FADESP
Orgão: COREN-PA
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Como tenho inveja das amendoeiras

Enviado por Zuenir Ventura, 12.01.2013, 09h45m

Zuenir Ventura

Telefonei um dia para Rubem — o Velho Braga, que hoje faria 100 anos — perguntando-

lhe por que tinha feito das amendoeiras uma de suas musas inspiradoras, se nem brasileiras elas

eram, mas indianas, como eu acabara de saber.

Discutia-se então a revelação de que, das 600 mil árvores existentes no Rio, 84% eram de

origem exótica, e apenas 16%, nativas. Daí que a Fundação Parques e Jardins, à medida que as

estrangeiras fossem morrendo, iria substituí-las por espécimes da Mata Atlântica. Não se tratava de

xenofobia, como podia parecer; era para poupar o ecossistema da cidade, que, segundo os técnicos,

se ressentia com a invasão estrangeira. O exotismo no caso era nocivo. [...]

Rubem Braga não caía nessas pegadinhas. Não usava as plantas apenas para fazer crônicas

poéticas. Era amante e grande conhecedor de sua alma e humores. Não é à toa que plantou um dos

mais surpreendentes jardins suspensos da cidade que o filho Roberto e a nora Maria do Carmo

fazem questão de manter e cuidar até hoje.

Sua resposta foi que as amendoeiras eram “árvores desentoadas”. Nunca estão de acordo

entre si. Não se vestem nem se despem por igual. Eram como a gente: cada uma envelhecia com a

idade, conforme o dia de nascimento — com a vantagem de que a cada ano fenecem, mas também

renascem.

A partir de então passei a olhar as amendoeiras de minha rua com inveja. Fiquei

imaginando como seria bom chegar a cada junho, mês em que nasci, com o cabelo caindo, a pele

enrugada, mas podendo me refugiar em casa aguardando a muda.

Um ano depois faria minha rentrée triunfal, novinho em folha, pronto para admirar as

mulheres que, segundo Rubem, em janeiro, sob a influência do verão, “sentem o coração lânguido,

e se espreguiçam de um modo especial; começam a dizer uma coisa e param no meio, seus olhos

brilham devagar, elas ficam olhando as folhas das amendoeiras como se tivessem acabado de

descobrir um estranho passarinho”.

Meu sonho não seria a imortalidade. Nada de estender a vida, como muitos desejam. Se eu

pudesse escolher, eu preferiria esticar a juventude. Que a existência humana continuasse limitada

aos 70/80 anos, tudo bem, mas que, durante o tempo de duração, eu pudesse compartilhar com as

amendoeiras de minha rua o milagre da renovação — todos os anos.

Disponível em: http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2013/01/12/como-tenho-inveja-das-amendoeiras-por-zuenir-ventura-482051.asp Acesso em: 30 abr. 20

Em “Era amante e grande conhecedor de sua alma e humores” (linha 10), ocorre uma
 

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795930 Ano: 2013
Disciplina: Português
Banca: FADESP
Orgão: COREN-PA
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REDES SOCIAIS

Antissocial

Por Ruy Castro, em 22/05/20

No mínimo, três ou quatro por dia. São os convites eletrônicos que recebo para me

tornar “amigo” de fulano ou para “fazer parte de sua rede profissional”. São convites amáveis,

endereçados a mim pelo primeiro nome. Mas, apesar do tratamento personalizado, têm um ar

de mensagem disparada a 100 ou 200 pessoas ao mesmo tempo. Sempre que recebo esses

convites, embatuco. Não tenho Facebook, nem sei como funciona, e as únicas redes profissionais

a que pertenço são as empresas a que presto serviços como escritor ou jornalista. Não sei, por

exemplo, qual é a “rede profissional” de um querido amigo que, aos 70 anos, nunca teve uma

carteira de trabalho assinada, nem acordou como assalariado um único dia em sua vida – e ele

me convidou a me juntar à sua “rede”.

Como não sei para que servem essas redes, também não sei o que responder e, pior,

temo que tais mensagens sejam pegadinhas marotas contendo vírus. Assim, ou as apago ou

deixo que morram de velhice na lista de mensagens. O problema é que, com isso, posso estar

passando por esnobe ou antissocial para quem se deu ao trabalho de me convidar a ser seu

“amigo” ou juntar-me à sua “rede”. O ridículo é que os que me convidam a tornar-me “amigo”

deles já são meus amigos. Têm meu telefone, sabem onde moro, já saímos juntos para

pândegas, discutimos futebol, fomos até sócios no passado e, se calhar, um tomou a namorada

do outro e vice-versa. Então, por que tal formalismo engessado?

Acredito que os programadores dessas maravilhas eletrônicas tenham pouca prática de

vida real. Por serem muito jovens e já terem nascido com um mouse na mão, talvez não saibam

que as relações humanas podem se formar a partir de um encontro casual, um aperto de mão,

um brilho no olhar.

Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed695_antissocial Acesso em 22 abr. 20

O fragmento de texto em que o autor não desqualifica os “convites eletrônicos” é
 

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795929 Ano: 2013
Disciplina: Português
Banca: FADESP
Orgão: COREN-PA
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Como tenho inveja das amendoeiras

Enviado por Zuenir Ventura, 12.01.2013, 09h45m

Zuenir Ventura

Telefonei um dia para Rubem — o Velho Braga, que hoje faria 100 anos — perguntando-

lhe por que tinha feito das amendoeiras uma de suas musas inspiradoras, se nem brasileiras elas

eram, mas indianas, como eu acabara de saber.

Discutia-se então a revelação de que, das 600 mil árvores existentes no Rio, 84% eram de

origem exótica, e apenas 16%, nativas. Daí que a Fundação Parques e Jardins, à medida que as

estrangeiras fossem morrendo, iria substituí-las por espécimes da Mata Atlântica. Não se tratava de

xenofobia, como podia parecer; era para poupar o ecossistema da cidade, que, segundo os técnicos,

se ressentia com a invasão estrangeira. O exotismo no caso era nocivo. [...]

Rubem Braga não caía nessas pegadinhas. Não usava as plantas apenas para fazer crônicas

poéticas. Era amante e grande conhecedor de sua alma e humores. Não é à toa que plantou um dos

mais surpreendentes jardins suspensos da cidade que o filho Roberto e a nora Maria do Carmo

fazem questão de manter e cuidar até hoje.

Sua resposta foi que as amendoeiras eram “árvores desentoadas”. Nunca estão de acordo

entre si. Não se vestem nem se despem por igual. Eram como a gente: cada uma envelhecia com a

idade, conforme o dia de nascimento — com a vantagem de que a cada ano fenecem, mas também

renascem.

A partir de então passei a olhar as amendoeiras de minha rua com inveja. Fiquei

imaginando como seria bom chegar a cada junho, mês em que nasci, com o cabelo caindo, a pele

enrugada, mas podendo me refugiar em casa aguardando a muda.

Um ano depois faria minha rentrée triunfal, novinho em folha, pronto para admirar as

mulheres que, segundo Rubem, em janeiro, sob a influência do verão, “sentem o coração lânguido,

e se espreguiçam de um modo especial; começam a dizer uma coisa e param no meio, seus olhos

brilham devagar, elas ficam olhando as folhas das amendoeiras como se tivessem acabado de

descobrir um estranho passarinho”.

Meu sonho não seria a imortalidade. Nada de estender a vida, como muitos desejam. Se eu

pudesse escolher, eu preferiria esticar a juventude. Que a existência humana continuasse limitada

aos 70/80 anos, tudo bem, mas que, durante o tempo de duração, eu pudesse compartilhar com as

amendoeiras de minha rua o milagre da renovação — todos os anos.

Disponível em: http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2013/01/12/como-tenho-inveja-das-amendoeiras-por-zuenir-ventura-482051.asp Acesso em: 30 abr. 20

O texto de Zuenir Ventura é um(a)
 

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795928 Ano: 2013
Disciplina: Português
Banca: FADESP
Orgão: COREN-PA
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Como tenho inveja das amendoeiras

Enviado por Zuenir Ventura, 12.01.2013, 09h45m

Zuenir Ventura

Telefonei um dia para Rubem — o Velho Braga, que hoje faria 100 anos — perguntando-

lhe por que tinha feito das amendoeiras uma de suas musas inspiradoras, se nem brasileiras elas

eram, mas indianas, como eu acabara de saber.

Discutia-se então a revelação de que, das 600 mil árvores existentes no Rio, 84% eram de

origem exótica, e apenas 16%, nativas. Daí que a Fundação Parques e Jardins, à medida que as

estrangeiras fossem morrendo, iria substituí-las por espécimes da Mata Atlântica. Não se tratava de

xenofobia, como podia parecer; era para poupar o ecossistema da cidade, que, segundo os técnicos,

se ressentia com a invasão estrangeira. O exotismo no caso era nocivo. [...]

Rubem Braga não caía nessas pegadinhas. Não usava as plantas apenas para fazer crônicas

poéticas. Era amante e grande conhecedor de sua alma e humores. Não é à toa que plantou um dos

mais surpreendentes jardins suspensos da cidade que o filho Roberto e a nora Maria do Carmo

fazem questão de manter e cuidar até hoje.

Sua resposta foi que as amendoeiras eram “árvores desentoadas”. Nunca estão de acordo

entre si. Não se vestem nem se despem por igual. Eram como a gente: cada uma envelhecia com a

idade, conforme o dia de nascimento — com a vantagem de que a cada ano fenecem, mas também

renascem.

A partir de então passei a olhar as amendoeiras de minha rua com inveja. Fiquei

imaginando como seria bom chegar a cada junho, mês em que nasci, com o cabelo caindo, a pele

enrugada, mas podendo me refugiar em casa aguardando a muda.

Um ano depois faria minha rentrée triunfal, novinho em folha, pronto para admirar as

mulheres que, segundo Rubem, em janeiro, sob a influência do verão, “sentem o coração lânguido,

e se espreguiçam de um modo especial; começam a dizer uma coisa e param no meio, seus olhos

brilham devagar, elas ficam olhando as folhas das amendoeiras como se tivessem acabado de

descobrir um estranho passarinho”.

Meu sonho não seria a imortalidade. Nada de estender a vida, como muitos desejam. Se eu

pudesse escolher, eu preferiria esticar a juventude. Que a existência humana continuasse limitada

aos 70/80 anos, tudo bem, mas que, durante o tempo de duração, eu pudesse compartilhar com as

amendoeiras de minha rua o milagre da renovação — todos os anos.

Disponível em: http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2013/01/12/como-tenho-inveja-das-amendoeiras-por-zuenir-ventura-482051.asp Acesso em: 30 abr. 20

O excerto em que o autor explicita a ideia anunciada no título é
 

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795927 Ano: 2013
Disciplina: Português
Banca: FADESP
Orgão: COREN-PA
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Como tenho inveja das amendoeiras

Enviado por Zuenir Ventura, 12.01.2013, 09h45m

Zuenir Ventura

Telefonei um dia para Rubem — o Velho Braga, que hoje faria 100 anos — perguntando-

lhe por que tinha feito das amendoeiras uma de suas musas inspiradoras, se nem brasileiras elas

eram, mas indianas, como eu acabara de saber.

Discutia-se então a revelação de que, das 600 mil árvores existentes no Rio, 84% eram de

origem exótica, e apenas 16%, nativas. Daí que a Fundação Parques e Jardins, à medida que as

estrangeiras fossem morrendo, iria substituí-las por espécimes da Mata Atlântica. Não se tratava de

xenofobia, como podia parecer; era para poupar o ecossistema da cidade, que, segundo os técnicos,

se ressentia com a invasão estrangeira. O exotismo no caso era nocivo. [...]

Rubem Braga não caía nessas pegadinhas. Não usava as plantas apenas para fazer crônicas

poéticas. Era amante e grande conhecedor de sua alma e humores. Não é à toa que plantou um dos

mais surpreendentes jardins suspensos da cidade que o filho Roberto e a nora Maria do Carmo

fazem questão de manter e cuidar até hoje.

Sua resposta foi que as amendoeiras eram “árvores desentoadas”. Nunca estão de acordo

entre si. Não se vestem nem se despem por igual. Eram como a gente: cada uma envelhecia com a

idade, conforme o dia de nascimento — com a vantagem de que a cada ano fenecem, mas também

renascem.

A partir de então passei a olhar as amendoeiras de minha rua com inveja. Fiquei

imaginando como seria bom chegar a cada junho, mês em que nasci, com o cabelo caindo, a pele

enrugada, mas podendo me refugiar em casa aguardando a muda.

Um ano depois faria minha rentrée triunfal, novinho em folha, pronto para admirar as

mulheres que, segundo Rubem, em janeiro, sob a influência do verão, “sentem o coração lânguido,

e se espreguiçam de um modo especial; começam a dizer uma coisa e param no meio, seus olhos

brilham devagar, elas ficam olhando as folhas das amendoeiras como se tivessem acabado de

descobrir um estranho passarinho”.

Meu sonho não seria a imortalidade. Nada de estender a vida, como muitos desejam. Se eu

pudesse escolher, eu preferiria esticar a juventude. Que a existência humana continuasse limitada

aos 70/80 anos, tudo bem, mas que, durante o tempo de duração, eu pudesse compartilhar com as

amendoeiras de minha rua o milagre da renovação — todos os anos.

Disponível em: http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2013/01/12/como-tenho-inveja-das-amendoeiras-por-zuenir-ventura-482051.asp Acesso em: 30 abr. 20

No título do texto, Zuenir Ventura
 

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795925 Ano: 2013
Disciplina: Português
Banca: FADESP
Orgão: COREN-PA
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Como tenho inveja das amendoeiras

Enviado por Zuenir Ventura, 12.01.2013, 09h45m

Zuenir Ventura

Telefonei um dia para Rubem — o Velho Braga, que hoje faria 100 anos — perguntando-

lhe por que tinha feito das amendoeiras uma de suas musas inspiradoras, se nem brasileiras elas

eram, mas indianas, como eu acabara de saber.

Discutia-se então a revelação de que, das 600 mil árvores existentes no Rio, 84% eram de

origem exótica, e apenas 16%, nativas. Daí que a Fundação Parques e Jardins, à medida que as

estrangeiras fossem morrendo, iria substituí-las por espécimes da Mata Atlântica. Não se tratava de

xenofobia, como podia parecer; era para poupar o ecossistema da cidade, que, segundo os técnicos,

se ressentia com a invasão estrangeira. O exotismo no caso era nocivo. [...]

Rubem Braga não caía nessas pegadinhas. Não usava as plantas apenas para fazer crônicas

poéticas. Era amante e grande conhecedor de sua alma e humores. Não é à toa que plantou um dos

mais surpreendentes jardins suspensos da cidade que o filho Roberto e a nora Maria do Carmo

fazem questão de manter e cuidar até hoje.

Sua resposta foi que as amendoeiras eram “árvores desentoadas”. Nunca estão de acordo

entre si. Não se vestem nem se despem por igual. Eram como a gente: cada uma envelhecia com a

idade, conforme o dia de nascimento — com a vantagem de que a cada ano fenecem, mas também

renascem.

A partir de então passei a olhar as amendoeiras de minha rua com inveja. Fiquei

imaginando como seria bom chegar a cada junho, mês em que nasci, com o cabelo caindo, a pele

enrugada, mas podendo me refugiar em casa aguardando a muda.

Um ano depois faria minha rentrée triunfal, novinho em folha, pronto para admirar as

mulheres que, segundo Rubem, em janeiro, sob a influência do verão, “sentem o coração lânguido,

e se espreguiçam de um modo especial; começam a dizer uma coisa e param no meio, seus olhos

brilham devagar, elas ficam olhando as folhas das amendoeiras como se tivessem acabado de

descobrir um estranho passarinho”.

Meu sonho não seria a imortalidade. Nada de estender a vida, como muitos desejam. Se eu

pudesse escolher, eu preferiria esticar a juventude. Que a existência humana continuasse limitada

aos 70/80 anos, tudo bem, mas que, durante o tempo de duração, eu pudesse compartilhar com as

amendoeiras de minha rua o milagre da renovação — todos os anos.

Disponível em: http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2013/01/12/como-tenho-inveja-das-amendoeiras-por-zuenir-ventura-482051.asp Acesso em: 30 abr. 20

Pode-se afirmar que, no segundo parágrafo do texto (linhas 4-8), predomina, quanto ao tipo textual, a organização
 

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795924 Ano: 2013
Disciplina: Português
Banca: FADESP
Orgão: COREN-PA
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Como tenho inveja das amendoeiras

Enviado por Zuenir Ventura, 12.01.2013, 09h45m

Zuenir Ventura

Telefonei um dia para Rubem — o Velho Braga, que hoje faria 100 anos — perguntando-

lhe por que tinha feito das amendoeiras uma de suas musas inspiradoras, se nem brasileiras elas

eram, mas indianas, como eu acabara de saber.

Discutia-se então a revelação de que, das 600 mil árvores existentes no Rio, 84% eram de

origem exótica, e apenas 16%, nativas. Daí que a Fundação Parques e Jardins, à medida que as

estrangeiras fossem morrendo, iria substituí-las por espécimes da Mata Atlântica. Não se tratava de

xenofobia, como podia parecer; era para poupar o ecossistema da cidade, que, segundo os técnicos,

se ressentia com a invasão estrangeira. O exotismo no caso era nocivo. [...]

Rubem Braga não caía nessas pegadinhas. Não usava as plantas apenas para fazer crônicas

poéticas. Era amante e grande conhecedor de sua alma e humores. Não é à toa que plantou um dos

mais surpreendentes jardins suspensos da cidade que o filho Roberto e a nora Maria do Carmo

fazem questão de manter e cuidar até hoje.

Sua resposta foi que as amendoeiras eram “árvores desentoadas”. Nunca estão de acordo

entre si. Não se vestem nem se despem por igual. Eram como a gente: cada uma envelhecia com a

idade, conforme o dia de nascimento — com a vantagem de que a cada ano fenecem, mas também

renascem.

A partir de então passei a olhar as amendoeiras de minha rua com inveja. Fiquei

imaginando como seria bom chegar a cada junho, mês em que nasci, com o cabelo caindo, a pele

enrugada, mas podendo me refugiar em casa aguardando a muda.

Um ano depois faria minha rentrée triunfal, novinho em folha, pronto para admirar as

mulheres que, segundo Rubem, em janeiro, sob a influência do verão, “sentem o coração lânguido,

e se espreguiçam de um modo especial; começam a dizer uma coisa e param no meio, seus olhos

brilham devagar, elas ficam olhando as folhas das amendoeiras como se tivessem acabado de

descobrir um estranho passarinho”.

Meu sonho não seria a imortalidade. Nada de estender a vida, como muitos desejam. Se eu

pudesse escolher, eu preferiria esticar a juventude. Que a existência humana continuasse limitada

aos 70/80 anos, tudo bem, mas que, durante o tempo de duração, eu pudesse compartilhar com as

amendoeiras de minha rua o milagre da renovação — todos os anos.

Disponível em: http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2013/01/12/como-tenho-inveja-das-amendoeiras-por-zuenir-ventura-482051.asp Acesso em: 30 abr. 20

Rubem Braga considerava as amendoeiras “árvores desentoadas” porque
 

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795923 Ano: 2013
Disciplina: Português
Banca: FADESP
Orgão: COREN-PA
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TEMPOS MODERNOS

Prazeres na “nuvem”

Por Ruy Castro, em 02/10/2012, na edição 7

CDs, DVDs, câmeras digitais, telefones fixos, controle remoto e até PCs de mesa com

teclado, mouse e disco rígido̶ pelo que li há dias no “Globo”, tudo isso tende a ser história nos

próximos anos. Por história, entenda-se o grande lixão a que se destinam os cadáveres da

eletrônica. Parece que, na próxima década, só os maiores de 30 anos ainda terão uma vaga

lembrança de para que serviam esses equipamentos, aos quais ficamos hoje atracados o dia

inteiro.

A ideia é a de que as mídias físicas, palpáveis, irão literalmente para o espaço. Tudo

estará na chamada “nuvem” ̶ que, até agora, ninguém conseguiu me explicar onde fica, como

funciona e se fecha quando chove. O acesso aos conteúdos se dará por smartphones, downloads

ou com o usuário plantando bananeira contra a parede e se concentrando.

A “nuvem” é infinita e conterá tudo o que puder ser exibido, alugado, vendido,

emprestado ou copiado, e isso dispensará as cidades de manter museus, galerias, cinemas,

bibliotecas, livrarias, sebos, arquivos públicos etc. Quer dizer, os acervos destes continuarão

existindo, mas “na nuvem”, sem despesas com funcionários, material de limpeza ou energia

elétrica.

Cá entre nós, não estou com a menor pressa de aderir à “nuvem”. Ainda gosto de

manusear, apalpar, acariciar. Hoje, por exemplo, minha coleção de LPs, em edições raras,

originais, lindíssimas, é a melhor que já tive (vitrolas e agulhas não faltam̶ estou estocado). O

mesmo quanto às coleções de CDs e DVDs que acumulei̶ só espero que não interrompam logo

a fabricação dos aparelhos para tocá-los. E continuo a frequentar sebos, bibliotecas e arquivos -

gosto até do cheiro de mofo.

Meu consolo é que, um dia, quando tudo isso tiver acabado e só estiver disponível na

“nuvem”, eu também estarei nas proximidades̶ em alguma nuvem

Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed714_prazeres_na_nuvem Acesso em 22 abr. 20

Julgue os enunciados abaixo com base nas regras de pontuação.

I. É obrigatório o uso das vírgulas na locução “por exemplo” (linha 17).
II. Os parênteses (linha 18) são utilizados para isolar uma digressão.
III. O travessão (linha 23) marca uma interrupção no pensamento do autor.
IV. As aspas em “nuvem” destacam um emprego novo do termo, de sentido não usual.
V. O uso das vírgulas que separam os complementos do verbo “manter” (linhas 12-13) é facultativo.

Está correto o que se afirma em
 

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795922 Ano: 2013
Disciplina: Português
Banca: FADESP
Orgão: COREN-PA
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REDES SOCIAIS

Antissocial

Por Ruy Castro, em 22/05/20

No mínimo, três ou quatro por dia. São os convites eletrônicos que recebo para me

tornar “amigo” de fulano ou para “fazer parte de sua rede profissional”. São convites amáveis,

endereçados a mim pelo primeiro nome. Mas, apesar do tratamento personalizado, têm um ar

de mensagem disparada a 100 ou 200 pessoas ao mesmo tempo. Sempre que recebo esses

convites, embatuco. Não tenho Facebook, nem sei como funciona, e as únicas redes profissionais

a que pertenço são as empresas a que presto serviços como escritor ou jornalista. Não sei, por

exemplo, qual é a “rede profissional” de um querido amigo que, aos 70 anos, nunca teve uma

carteira de trabalho assinada, nem acordou como assalariado um único dia em sua vida – e ele

me convidou a me juntar à sua “rede”.

Como não sei para que servem essas redes, também não sei o que responder e, pior,

temo que tais mensagens sejam pegadinhas marotas contendo vírus. Assim, ou as apago ou

deixo que morram de velhice na lista de mensagens. O problema é que, com isso, posso estar

passando por esnobe ou antissocial para quem se deu ao trabalho de me convidar a ser seu

“amigo” ou juntar-me à sua “rede”. O ridículo é que os que me convidam a tornar-me “amigo”

deles já são meus amigos. Têm meu telefone, sabem onde moro, já saímos juntos para

pândegas, discutimos futebol, fomos até sócios no passado e, se calhar, um tomou a namorada

do outro e vice-versa. Então, por que tal formalismo engessado?

Acredito que os programadores dessas maravilhas eletrônicas tenham pouca prática de

vida real. Por serem muito jovens e já terem nascido com um mouse na mão, talvez não saibam

que as relações humanas podem se formar a partir de um encontro casual, um aperto de mão,

um brilho no olhar.

Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed695_antissocial Acesso em 22 abr. 20

A relação entre a forma verbal e seu sujeito sintático está indicada corretamente em
 

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